A Arte de Viver

 Em Artigos, Filosofia, Filosofia Clínica

Pode parecer anti-estoico escrever sobre a moral estoica, já que para os estoicos o importante era agir e não falar, mas como o próprio Epicteto (filósofo estoico – nascido em 55 no Império Romano) discursou (para seus alunos) sobre moral estoica e como eu não sou um estoico, meu “crime” será menor.

É que encontrei em minha estante um livrinho de Epicteto que me foi agradável de ler, editado no Brasil com o título “A Arte de Viver – Manual Clássico da Virtude, Felicidade e Sabedoria”, mas que foi retirado dos seus “Discursos” transcritos pelo historiador Flávio Arriano, já que o próprio Epicteto não deixou escritos filosóficos.

Para Epicteto o verdadeiro e principal papel da filosofia é ajudar as pessoas a enfrentarem da melhor maneira possível os desafios do cotidiano e a lidar com as perdas, mágoas, decepções às vezes inevitáveis da vida. Neste livro ele tenta demonstrar que a virtude e a felicidade estão intimamente relacionadas.

Confira este trecho sobre “Ideais”:

“Implante em si mesmo os ideais que você deve prezar – Apegue-se ao que é espiritualmente superior sem fazer caso do que as pessoas pensem ou façam. Mantenha-se fiel às suas verdadeiras aspirações, não importa o que esteja acontecendo em torno de você.”

E na sequência:

“Aqueles que buscam uma vida de sabedoria mais elevada, que procuram viver de acordo com princípios espirituais, devem estar preparados para serem ridicularizados e condenados.

Certas pessoas que progressivamente baixaram seus padrões pessoais tentando conquistar a aceitação social e as comodidades da vida sentem-se profundamente ameaçadas por aqueles que demonstram uma tendência filosófica, que se recusam a comprometer seus ideais espirituais e buscam um aprimoramento. Não deixe que essas almas pequenas sejam uma referência em sua vida. Tenha compaixão delas, mas se mantenha firme no que você sabe ser o seu bem.

Quando você iniciar seu programa de progresso espiritual, é possível que as pessoas mais próximas caçoem de você ou o acusem de estar sendo arrogante.

Cabe a você comportar-se com humildade e seguir com rigor e persistência seus ideais morais. Mantenha-se fiel ao que você sabe, no fundo do seu coração, ser o melhor. Se você se mostrar inabalável, as próprias pessoas que o ridicularizam passarão a admirá-lo.” Pag. 31

Mas que ideais são esses? E que virtudes são essas de que fala Epicteto? O filósofo da virtude mostra caminhos em seus “Discursos” que provavelmente foram bons ou úteis para ele mesmo e colocou suas ideias sobre a felicidade, virtude e sabedoria de acordo com o seu próprio modo de pensar. No entanto nas citações transcritas acima Epicteto não nos diz quais os “ideais morais”, os “princípios espirituais”, as “verdadeiras aspirações” e nem qual o “programa espiritual” devemos seguir. Caberia então a cada pessoa única encontrar os ideais, princípios ou programa espiritual que realmente tem a ver consigo e aí sim, talvez tais conselhos de Epicteto façam sentido e sejam efetivos de alguma forma.

Pedro de Freitas Jr.
Professor Adjunto do Curso de Pós-graduação e Formação em Filosofia Clínica – Florianópolis – SC
www.pedrodefreitasjr.com
www.facebook.com/pedrodefreitasjr

Posts Recentes
Showing 4 comments
  • Cacildo silva

    Parabens Pedro! Colocação perfeita. Pertinente ao assunto filosófico em pauta: A Arte de Viver. Já foi dito que “os problemas” que se nos acercam não são resolvidos, não pelas respostas dadas, mas, pelas perguntas mal formuladas. Ademais, também, nem tudo que se pode se deve. Posso fazer, mas devo fazer? (serve para qualquer verbo). O dizer de Epcteto serve para quem atira em tudo que se mexe. Conceituar as tuas formulações é mixter de quem compreendeu o caminho da individuação.

    • Pedro

      Obrigado Cacildo! Pois sim. Concordo e acredito que ir além e conceituar as questões é trabalho para quem compreendeu o caminho da individuação. “Posso fazer, mas devo fazer?” e às vezes a questão vem antes, quando questionamos a própria pergunta: Posso perguntar, mas devo perguntar? Perguntar pode ser para qualquer um, mas, questionar a própria pergunta? Não sei. Talvez ainda seja para aquele que compreendeu, ou pelo menos começou a desvelar o caminho..

  • Beto Colombo

    Muito bom amigo Pedro.

    estamos juntos

    • Pedro

      Grato! Amigo Beto.

      Sim. Estamos juntos.

Contate-nos

Aqui você pode enviar um e-mail.

Not readable? Change text. captcha txt

Start typing and press Enter to search