Além do Bem e do Mal, Jenseits von Gut und Böse, 1886

 Em Artigos, Filosofia

FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE, 1844-1900.

O próprio título da obra indica o ponto de vista que o autor adotou aqui, para além das noções da moral comum, dos valores absolutos herdados da tradição judaico-cristã. À antinomia bom/mau (Gut/Bösei ), que, com a antinomia verdadeiro/falso, ordena o mundo construído pelo homem, Nietzsche  opõe um poderoso “sim” a tudo o que engrandeça, embeleze e intensifique a vida. Assim, a obra tem em vista ao mesmo tempo o cristianismo, o socialismo e o niilismo, sendo o segundo resultado lógico do primeiro, enquanto o terceiro é consequência fatal dos dois outros juntos.

Na primeira das nove partes que compõem Além do bem e do mal, Nietzsche denuncia os “preconceitos dos filósofos”. O mais grave deles é a crença no valor absoluto da verdade: “o que propriamente em nós aspira à verdade?”, interroga-se o autor. Por que os filósofos não procurariam, em vez disso, o não-verdadeiro, o incerto, até mesmo o falso? Por que só atribuem valor à sinceridade, ao desinteresse, à realidade, e só têm desprezo pela mentira, pelo egoísmo e pelas aparências? É que as investigações dos filósofos são inteiramente orientadas pelas ideias morais às quais querem chegar. Assim, as normas que acreditam extrair da razão universal não passam de reflexos de seus instintos pessoais e da hierarquia à qual obedecem. Nietzsche denuncia também o uso que os homens fazem de certos conceitos, como de causa, lei, liberdade, necessidade e finalidade: seria errôneo acreditar que essas noções possibilitam explicar os fenômenos, quando não passam de ficções destinadas a designá-los.

A segunda parte é dedicada ao “espírito livre”. Não ao livre pensador, que só sonha em realizar a “felicidade do rebanho para todos”, mas ao filósofo do futuro, que compreendeu que só a “vontade de poder”, afora qualquer consideração moral, permite que a humanidade se desenvolva e progrida: “Acreditamos [ … ] que tudo o que é mau, terrível e tirânico no homem, o que nele há de fera e serpente, serve tanto para a elevação da espécie ‘homem’ quanto seu contrário”.

A terceira parte, intitulada “O fenômeno religioso”, versa sobre a história da alma, sobre o problema da fé e sobre a “neurose religiosa” que se espalhou por toda a terra. Nietzsche ressalta o caráter pernicioso das religiões: em vez de servirem à seleção e à educação dos homens, elas só pensam em reinar soberanamente, com a pretensão de serem fins em si, e não meios entre outros meios.

Depois de uma quarta parte que reúne algumas, Nietzsche tenta reescrever a “história natural da moral” (quinta parte): até agora, os filósofos esforçaram-se por “fundar” a moral que acreditavam necessária; se tivessem se dado ao trabalho de examinar a genealogia dessa moral, teriam entendido que ela se baseia numa “prodigiosa inversão de valores”, graças à qual os escravos impuseram a toda a Europa uma “moral de rebanho”, uma moral do sacrifício e da renúncia, exaltando as virtudes democráticas e os instintos gregários.

A sexta parte da obra dirige-se aos eruditos (”Nós, eruditos”), que deveriam estar a serviço dos poderosos, como simples instrumentos de conhecimento. Quanto aos filósofos do futuro, deverão “percorrer por inteiro o círculo dos valores”, para assumir a nobre tarefa de legiferar e de determinar a destinação do homem. Não se deve acreditar, porém, que os imoralistas de amanhã não terão suas próprias virtudes; na sétima parte (”Nossas virtudes”), Nietzsche enumera-as e mostra em que elas diferem das virtudes medíocres de que se jactam os fracos.

Nas duas últimas partes (“Povos e pátrias” e “O que é nobre?”), depois de dissecar a pretensa “profundidade” do povo alemão e de lembrar o refinamento do espírito francês, Nietzsche explica seu ideal moral e social: “Até agora toda a elevação do tipo ‘homem’ foi obra de uma sociedade aristocrática, e sempre será assim: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e diferenças de valor entre os homens, e que necessita da escravidão em algum sentido”. São assim nitidamente distinguidos dois tipos de moral: a dos senhores, que se baseia na antítese “nobre”/”desprezível”, e a dos escravos, baseada na oposição “bom”/”mau”, sendo o “mau”, segundo a moral dos escravos, nada mais que o “nobre” da moral dos senhores!

Edição brasileira: Além do bem e do mal, São Paulo, Companhia das Letras, 1992.

Estudo: M. Sautet, introdução à edição francesa: Pardelà le bien et le mal, col. “Classiques de la philosophie”, Le livre de poche, L.G.F., 1991.

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