Árvore que Floresce no Inverno

 Em Filosofia Clínica

O que há de humano nas árvores?

Já vi vários tipos de metáforas que tentam explicar a vida, uma das que me recordo, comparava a vida às estações do ano. Na Filosofia Clínica, acreditamos que cada pessoa sente o sol num fim de tarde outonal de uma maneira que é exclusivamente sua, da mesma forma, também a vida de cada ser é tão singular que não há como rotular todas as pessoas dentro de ciclos definidos como as estações do ano.

Claro que há sim, os que se identificam mais com a Primavera de Vivaldi, os que gostam do calor do verão, os que preferem viver de acordo com um inverno existencial e, sim, há também, àqueles que são como os Ipês de Rubem Alves: árvores teimosas que florescem no inverno.

“Gosto dos ipês de forma especial.
Questão de afinidade.
Alegram-se em fazer as coisas ao contrário.
As outras árvores fazem o que é normal – abrem-se para o amor na primavera,
Quando o clima é ameno e o verão está para chegar, com seu calor e chuvas.
O ipê faz amor justo quando o inverno chega,
E a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio.
(…)
Penso que os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser.
Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno…
Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês.
E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo.
Eles nem o ouvirão e não responderão.
Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto.
Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés,
E sentirá que ali resplandece a glória divina”.
(Rubem Alves[1])

Bom seria se pudéssemos ser como os ipês nos momentos da vida em que escrevemos o nosso inVerno existencial com F. Mas nem sempre é assim, talvez seja algo para alguns poucos. Já imaginou se todas as árvores que existissem no mundo fossem ipês?

Pode parecer absurdo, eu sei…

Contudo, existem pessoas que reconhecem que há uma infinidade de plantas na natureza, mas que têm dificuldade para compreender o outro, para lidar com quem pensa diferente de si, tais pessoas, às vezes podem até ter utopias em que se endeusam e pensam que todos são a sua imagem e semelhança.

Essa é uma das grandes lições da Filosofia Clínica: muito além de toda a catalogação botânica, inúmeras espécies de plantas catalogadas pela humanidade que nos mostram o quão diversificada é a natureza, porém, não há nenhuma enciclopédia que tenha sido capaz de catalogar os indivíduos humanos como se fossem ipês – embora tenham existido tentativas por aí…

Algumas tentativas de catalogar seres com alma humana se mostraram frustradas diante de pessoas tais como o arbusto-absurdo que Rubem Alves encontrou em sua caminhada. Se a convenção social obrigar a culpar alguém, eu diria que a culpa deve ser do Rubem Alves, talvez por ele ter a sensibilidade de perceber o que poucos querem ver. E que Deus o tenha – como padroeiro da luta antimanicomial em 18 de Maio – abre aspa: na Filosofia Clínica não existem patologias, o que existe são formas de existir; fecha aspa.

E por falar em Maio, voltemos ao outono, estação linda para caminhadas filosóficas de fim de tarde, sob a luz dourada e, se tivermos sorte, haverá folhas secas na calçada (ou onde quer que caminhemos), mas se tivermos mais sorte ainda, quem sabe encontremos o arbusto estranho que Rubem Alves nos contou…

Pode ser até que já tenhamos encontrado alguém assim… Como foi a interseção entre nós e este ser-arbusto-estranho-de-Rubem-Alves? Pode ser também uma inspiração para todos aqueles que já se sentiram um arbusto estranho querendo florir, mas com medo de ser considerado louco pelos demais homo sapiens.  – O que há de sapiência nesse homo, afinal?!

Pergunta difícil de responder, daquelas que é preciso passar pelo outono existencial, abandonar nossas folhas, nossas verdades que produziram nosso alimento por bastante tempo, desapegar, deixar amarelar, secar, até se desprender com o vento. Ver partir pedaços de nós como se fossem folhas no outono pode ter beleza e poesia, em alguns casos fará bem, em outros é contraindicado. Lembre-se que nem todas as árvores perdem as folhas no inverno.

O inverno pode denotar introspecção, preparação antes de florir na primavera. Essa é a minha parte favorita da metáfora da Vida X  Estações do Ano: Não é incrível ver a mesma paisagem ficar completamente diferente conforme muda a estação? Mudança. Transformação. Renovação. Palavras bonitas para dizer que a plasticidade da Estrutura de Pensamento de uma pessoa pode ter muito mais do que quatro estações por ano. Não somos árvores, mas há um universo infinito de sabedoria que os seres humanos podem aprender com elas.

[1]AVES, Rubem. Tempus Fugit. 9. Ed. Paulus: São Paulo, 2008. (p. 13 e 15).

Tainara Aline Munaretto de Oliveira
Licenciada em Pedagogia (Universidade do Contestado – UnC)
Especialista em Educação (UFSC)
Curso de Filosofia (Instituto Packter) (2013-2015).
Especialista em Filosofia Clínica (em conclusão).
Participa dos Centros de Filosofia Clínica de Chapecó e Florianópolis – SC

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
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