As pontes como vice-conceito

 Em Artigos, Filosofia Clínica

Quando eu era criança e passeava com meus pais por alguns lugares do interior, daqueles com estradinhas estreitas de terra, às vezes nos deparávamos com pequenas e velhas pontes de madeira. Lembro-me que fechava os olhos enquanto sentia os pneus do carro passando pela ponte; o ato de fechar os olhos estava relacionado ao medo de que a velha ponte caísse ao passar por ela. Mal sabia eu, na época, o quanto isso poderia se tornar uma metáfora acerca da existência humana.

Falo isso, porque sei que também existem pessoas que ao atravessar uma “ponte” em suas vidas, fecham os olhos para não vê-la, imaginando que, com este comportamento, não obterão a função do medo.

Fechar os olhos, também pode ser uma expressão metafórica para vida: uma negação de ver a ponte, embora sabendo de sua existência; ou até quem sabe, uma cegueira total, na qual não se perceba a ponte, mesmo ao passar por ela. E não há quaisquer julgamentos quanto a isso, é tudo natural.

No entanto, gostaria primeiramente de explicar o que é uma ponte, dessas que falei no segundo e terceiro parágrafo. Uma ponte existencial é igual às pontes que conhecemos em nosso mundo concreto, como a que descrevi no primeiro parágrafo. Ambas têm como serventia ligar um ponto do caminho até outro, ou seja, fazer uma ligação entre dois pontos separados por um “abismo”.

As pontes servem para dar continuidade ao caminho, as vezes podem ser o único meio de sair de um lado para chegar ao outro. As pontes não são o destino final, são apenas a travessia. Claro que até pode acontecer que alguém decida ficar morando na ponte, sim até pode…

Todavia, há pontes que são capazes de levar a lugares lindos e, o contrário também é verdadeiro. Assim como existe inclusive vários tipos de pontes: pontes longas, pontes curtas, pontes de travessia demorada, pontes breves, pontes belas ou feias, pontes seguras e resistentes, pontes interditadas, em reforma (tal como a Hercílio Luz), pontes cuja vista é deslumbrante – ou nem tanto – ao atravessá-la e com paisagens que só é possível avistar quando se está na ponte, há pontes que caem e pontes novas que são construídas, há pontes que são edificadas em locais inadequados, ou com sérios erros de engenharia, uso de materiais equivocados, pontes com muito aço e concreto para atravessar uma mera valeta, ou pontes feitas de frágeis barbantes para atravessar imensidões de águas violentas, há pontes iluminadas e escuras, pontes que deixam saudades, aprendizados, há inclusive pontes que são capazes de deixar a dor para trás…

No entanto, construir pontes existenciais é uma tarefa dos que se ocupam como engenheiros ou construtores da alma humana. Pode ser uma ponte que seja construída para ligar o que está ‘dentro’ com o que está ‘fora’ da pessoa, um dado de semiose, uma nova interseção, uma sustentação autogênica, uma busca… Uma ponte pode ser muitas coisas, mas é essencialmente um meio de ligação entre dois mundos separados – pelo menos a princípio.

Vou dar um exemplo: imaginemos uma pessoa que passou por uma traição em seu casamento que resultou em uma separação. Isso terá como decorrência algumas mudanças em sua vida, talvez de casa, de rotina, de convivências… Dentro de um tempo, as novas mudanças já não serão mais mudanças, mas serão as atuais circunstâncias da pessoa. O período de transição entre como era a vida antes e como ficou depois da separação, foi a ponte dessa pessoa, sua travessia.

Vamos imaginar ainda que essa pessoa do exemplo ficou arrasada com a separação e não tinha condições de pular da sua vida daqui para lá, mas que precisou construir uma ponte – que pode ser qualquer coisa que faça ‘sentido’ à Estrutura de Pensamento em questão – para que pudesse atravessar, em outras palavras, continuar seu caminho, levar sua vida adiante.

Esse texto não tem fim ou conclusão, porque também pode ele, ser uma espécie de ponte, visando refletir sobre a existência humana. É um convite ao filosofar sobre nossa vida: será que cada um de nós já teve alguma ponte durante os anos vividos? Ou se está passando por uma? Sou um construtor de pontes o tempo todo ou somente construo quando me julgo em algum problema de travessia? Ou vivo de outra maneira e nada disso de “pontes” faz sentido para mim?

Mas para finalizar com uma mensagem otimista para aqueles que estão em determinado ponto de sua existência e que não veem nenhuma estrada, que acham que o caminho chegou ao fim, ou até mesmo àqueles que vivem em um mundo cujo qual parece não ser o seu, que gostariam de estar em outro mundo, talvez, talvez, talvez, possa haver uma ponte a ser construída!

Conheça mais a Filosofia Clínica e descubra como, por que e se essas metáforas existenciais são possíveis.

Recommended Posts
Contate-nos

Aqui você pode enviar um e-mail.

Not readable? Change text. captcha txt

Start typing and press Enter to search