Como cultivar o jardim da “Vizinhança”

 Em Artigos de Filósofos Clínicos, Filosofia, Filosofia Clínica

Era uma vez um jardim de lavandas que vivia nos dias de hoje. Como atualmente os espaços são muito menores, o jardim de lavandas não se espalhava por um imenso campo, tal como teria sido se essa história tivesse passado nos tempos dos contos de fadas; na verdade, o jardim de lavandas existia na sacada de um apartamento em meio a uma plantação de prédios altos, típica das grandes cidades urbanas de hoje.

Normalmente, ao falar em regiões metropolitanas, alguns logo terão em mente os ruídos do trânsito caótico, a agitação da multidão, a pressa e a correria de gente anônima em toda parte que, não costuma dispor tempo livre para ouvir as ‘bobagens’ dos contos de fadas… Faça uma pesquisa despretensiosa e pergunte a seus conhecidos para listar algumas características que mais lhes chamam a atenção em grandes centros urbanos: Raramente, você ouvirá sobre um ipê que floresce todo ano em um canteiro às margens de uma rodovia, de um prédio com algumas pequenas árvores na cobertura e, menos provável ainda, que lhe falem sobre jardins de lavandas e afins…

Um jardim de lavandas é cenário para os contos de fadas, concordo que parece destoar da paisagem pós-contemporânea. Mas, foi por isso que escolhi começar esse texto com o tradicional “era uma vez”, para instigar o pensamento e tratar do que combina ou não com a nossa Vizinhança. Quais os elementos que fazem parte do cenário que nos rodeia.

Em Filosofia Clínica o termo “Vizinhança” é utilizado, entre outras coisas, para localizar autogenicamente uma pessoa. Segundo o filósofo Lúcio Packter, que cunhou o termo, o conceito de Vizinhança vai além dos vizinhos “de carne e osso” que residem próximo à nossa casa, mas o sentido é o mesmo, porém vai ainda mais longe:

 “Vizinhança existencial é tudo aquilo que aparece na historicidade da pessoa, aquilo que está em contato com a EP, como os pensamentos, as sensações, as emoções, o que estudamos, aquilo que acreditamos, todos estes elementos quando em contato com a EP são vizinhos existenciais” (PACKTER, 2013, p. 20).

Quais são os seus “Vizinhos” existenciais? Quais dos seus “Vizinhos” combinam com o cenário da sua vida? Há “Vizinhos” que parecem não combinar com o restante do mundo à sua volta? É possível escolher os “Vizinhos” que desejamos ter? Como compor as “Vizinhanças” de maneira que, pela familiaridade, elas povoem uma nova vida para nós?

Depois de refletir sobre estas questões, voltemos à história:

“Era uma vez um jardim de lavandas que vivia nos dias de hoje…”

Da sacada, exalava seu suave perfume para outras sacadas vizinhas, quando o ar estava mais puro ao amanhecer, talvez fosse possível sentir na brisa suave o doce aroma das lavandas.

Certo dia, a brisa das lavandas convidou um novo vizinho que tinha muito a ver com seu perfume.

Ao anoitecer, enquanto eram regadas com carinho, um violino começou a tocar…

Havia uma pessoa tocando violino, sentada na sacada do prédio vizinho. Uma violinista brilhante havia se mudado recentemente, acredito que ela escolhia ir tocar na sacada do apartamento porque a brisa que soprava do jardim de lavandas a inspirava.

Um jardim de lavandas, música ao vivo de violino, agora já são dois elementos compondo uma vizinhança nova dentro daquele cenário. E é assim que vai se compondo uma vizinhança…

Essa história é um exemplo de alguém que gostava de jardins perfumados, música suave de violinos como na magia dos contos de fadas. Provavelmente os vizinhos que surgirão nessa composição, serão coisas que combinem com esses elementos.

Como exercício, eleja um novo “vizinho” para a sua vida, escolha algo que você goste, que tenha a ver contigo, com a sua Estrutura de Pensamento (EP) e comece a cultivá-lo em sua vida, como se fosse um singelo vasinho com uma muda de lavanda. Se você não der atenção e não cuidar deste novo “vizinho” que você adotou para sua vida, ele logo irá esmaecer, lembre-se: é igual a um vasinho de lavanda, se você não der água, não o puser no sol, a planta vai perdendo força e morre.

Dê intencionalidade aos “vizinhos” que você gostaria que fizessem parte da sua existência. Não adianta brigar com o colega de trabalho que você não suporta, reclamar do vizinho que faz barulho de madruga, ou se queixar sobre algo que lhe falta. Assim, você estará fazendo exatamente o contrário: está tornando esses “vizinhos” que você não quer, ainda mais próximos, e ao dar foco  neles, é provável, que eles convidem ainda outros “vizinhos”, semelhantes, ou seja, compondo uma vizinhança cada vez maior de coisas que você considera desagradável (ou nocivo à sua EP).

Como diz Mário Quintana, em sua poesia que combina com perfume de lavandas e música de violinos, “o segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”.

Referência:

PACKTER, Lúcio. Matemática Simbólica: caderno I. Semanas de Estudos – Compilação e transcrição: Gilberto Sendtko. ANFIC. Vol.1. (Sem ed.) Porto Alegre: 2013.

________________

Publicado originalmente dia 15/04/2017 em: https://www.terapiafilosofica.com/como-cultivar-o-jardim-da-vizinhanca/

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
Posts Recentes

Leave a Comment

Contate-nos

Aqui você pode enviar um e-mail.

Not readable? Change text.

Start typing and press Enter to search