Ética da atividade virtuosa

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O que é Ética? A ética é o ramo da filosofia também conhecida como filosofia moral. A palavra ética tem origem no termo grego ethos que quer dizer “hábito”, “bom costume”, “costume superior” e “harmonia”. A tradução latina para o ethos é morus que também significa “costume superior” e é desta palavra morus que surge a palavra portuguesa moral. A ética se refere aos fundamentos de padrões de certo e errado, o que prescreve o que os humanos devem fazer (direitos, deveres, obrigações, virtudes), refere-se a normas que impõe obrigações de não cometer atos como roubo, assassinato, assalto, corrupção, fraude, calúnia. Padrões éticos também recomendam as virtudes da honestidade, integridade, lealdade e compaixão. Na área dos direitos, os padrões éticos incluem o direito a vida, a liberdade, a privacidade.

A ética também se refere ao estudo e a crítica do desenvolvimento dos padrões éticos. Como os padrões éticos podem se desviar do que é ético é necessário verificar os padrões para garantir que eles sejam razoáveis e bem fundamentados.

Ética é então um esforço contínuo do pensamento em estudar nossas crenças morais e condutas morais. O humano quase que exclusivamente não vive só. A ética é então o pensamento sobre o viver e o conviver, mas não é um pensamento qualquer, é um pensamento que precisa ser fundamentado e verificado pela razão.

Um padrão ético, ou uma prática ética, ou melhor, a ética (pensamento sobre a vida, a vida vivida, concreta) pressupõe a atribuição de valores. A ética, sendo um pensamento sobre a vida regida pelo pensamento, pressupõe a escolha da melhor opção. Quando escolhemos agir de uma forma x e recusamos a forma y ou z pressupõe-se que atribuímos valor a todas as opções e escolhemos a melhor. Assim a ética é uma atividade do pensamento que comporta atribuição de valores às possibilidades do agir visando à identificação da melhor. Mas não basta identificar a melhor opção a partir da reflexão, é preciso aplica-la na convivência, na vida concreta para estabelecer um bem constante, consistente e justificado.

Para Aristóteles (Estagira, 384 a.C. – Atenas, 322 a.C. foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande), em sua obra Ética a Nicômaco estudamos a ética a fim de melhorar nossas vidas. Sua preocupação é a natureza do bem-estar humano. O que precisamos para viver bem é uma apreciação adequada em que os bens (como por exemplo, prazer, virtude, honra, riqueza) estão em harmonia (encaixados ou ajustados) com o todo (= cosmos – do grego kósmos, “universo”, “ordem”, “organização”, “beleza”, “harmonia”).

O filósofo estagirita afirma que a ética não é uma disciplina teórica: o bom para o humano não é apenas ter conhecimento, mas com este, o humano será mais capaz de alcançar o bem ao desenvolver uma compreensão mais completa do que é florescer. A virtude não se limita à possibilidade (potência) de agir bem. É potência colocada em ato.

Aristóteles não esta à procura de uma lista das coisas que são boas. Tal lista poderia ser criada com muita facilidade – muitos concordariam que é bom sentir prazer, ter saúde, ser honrado. A grande e difícil questão de Aristóteles surge quando perguntamos se alguns desses bens são melhores do que outros. A busca de Aristóteles pelo bem é a busca do bem maior. Este bem maior assume três características: é desejável por si, não é desejado por causa de nenhum outro bem e todos os outros bens são desejados por sua causa. Aristóteles utiliza os termos eudaimonia (felicidade) e eu zên (viver bem) para designar tal fim (o bem maior). O termo grego eudaimonia é composto por duas partes: eu significa “bem” e daimonia significa “divindade”. Estar vivendo com eudaimonia é estar vivendo de uma maneira bem favorecida por uma “divindade” ou “espírito”. Mas ele não fala sobre a etimologia, ele considera eudaimonia como um substituto para eu zên (viver bem). Sendo eudaimonia o mais alto fim, e todos os outros bens (como a saúde, a riqueza, etc.) são procurados porque eles promovem o bem-estar.

Mas como determinar em que consiste a “felicidade” ou o “viver bem”? Qual a utilidade de reconhecer o mais alto fim se não determinarmos em que consistem estes? Para Aristóteles o ergon (função) de um ser humano consiste na atividade da parte racional da alma em conformidade com a virtude. O bem de um ser humano deve ter algo a ver com o fato de ser humano. E o que diferencia a humanidade das outras espécies, dando a possibilidade de viver uma vida melhor é a nossa capacidade de guiar-nos pela razão.

Usar a razão ao longo de uma vida plena é em que consiste a felicidade. Assim para o humano fazer qualquer coisa é necessária a virtude e, portanto, viver bem consiste em atividades guiadas pela alma racional, de acordo com a virtude. E a virtude para Aristóteles nada mais é do que o humano viver de acordo com seus talentos. O talento é um indicador da vida (um sintoma). A vida será boa se você explorar, potencializar e aplicar seus talentos. O humano para ter uma vida boa (em eudaimonia) precisa tornar em ato um talento que é racional. Vive bem quem pensa, mas não só na possibilidade (potência), mas o pensamento efetivo e efetivado em “carne e osso”.

A felicidade (eudaimonia) é o desabrochar do humano, ou melhor, é o pleno desabrochar de suas capacidades intelectivas. A eudaimonia dependerá do uso adequado da virtude/talento. É razão para a vida.

Aristóteles dá a forma da boa vida, mas não o conteúdo. Este deverá ser preenchido pelos talentos individuais. A eudaimonia é o desabrochar do homem para uma vida plena, mas com conteúdos específicos, os talentos individuais de cada um, as especificidades individuais de cada humano (onde a única virtude/talento comum é o pensar – a razão).

A vida em eudaimonia é a vida em felicidade (em ação e não estado). É o florescimento pleno do humano, o seu desabrochar adequado ou em harmonia com o Cosmos. A felicidade não é a virtude, mas a atividade virtuosa. Viver bem consiste em fazer algo, não apenas estar em determinado estado ou condição. Consiste nas atividades ao longo da vida que atualizam (tornam em ato) as virtudes da parte racional da alma.

Mas Aristóteles deixa claro que para ser feliz é preciso possuir bens outros também, tais como, amigos, riqueza e poder. Caso contrário à felicidade pode estar em perigo se o humano está muito carente destes e não será capaz de encontrar muitas oportunidades para a atividade virtuosa. Mas o que isso compromete a felicidade? Aristóteles argumenta que a atividade virtuosa será de alguma forma diminuída ou afetada, se alguém não tiver as condições e não for capaz de encontrar oportunidades para a atividade virtuosa por um longo período de tempo.

Assim para Aristóteles, a eudaimonia – o florescimento pleno do humano, o desabrochar para a vida a mais alta atividade, a boa virtude – não é algo que chega até o homem por acaso – embora a sorte seja um fator importante – o humano possui muita responsabilidade de adquirir e exercitar as virtudes e viver plenamente.

Pedro de Freitas Jr.

Bibliografia:
Aristóteles. Ética a Nicômaco. 4ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991 (Os Pensadores; Vol. 2)

Imagem:
A Escola de Atenas (Scuola di Atenas no original) é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael e representa a Academia de Platão. Foi pintada entre 1509 e 1510 na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano. A obra é um afresco em que aparecem ao centro Platão e Aristóteles. Platão segura o Timeu e aponta para o alto, sendo assim identificado com o ideal, o mundo inteligível. Aristóteles segura a Ética e tem a mão na horizontal, representando o terreste, o mundo sensível. Artista: Rafael; Ano: 1506-1510; Tipo: Afresco; Dimensões: 500 cm × 700 cm; Localização: Palácio Apostólico, Vaticano; Fonte: Wikipédia

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