Filosofia Clínica para profissionais da área da Saúde: uma breve introdução

 Em Filosofia Clínica

Durante todos os dias, muitas e muitas pessoas recorrem a diversos profissionais de todas as áreas da saúde em busca de ajuda, de acolhimento, orientação e alívio para suas dores. Sejam dores físicas, emocionais, mentais, ou qualquer outro tipo de padecimento do ser humano, existe uma busca por melhorar a incômoda situação atual.

Há também um grupo menor, que busca a prevenção de doenças, orientação para um estilo de vida mais saudável e que procura averiguar a condição atual a fim de melhorias  – mesmo sem estar padecendo.

Cada pessoa tem suas razões que a levam a procurar por atendimento clínico, esta é uma das primeiras contribuições da Filosofia Clínica para com as demais áreas. Não podemos afirmar que “todos” (Termo Universal) vêm em busca de alívio, por exemplo, às vezes pode ser somente um hábito que se repete (Paixões Dominantes), uma crença pré-concebida (Pré-Juízo), uma Emoção ou uma Intuição, uma maneira de Expressividade, ou qualquer outro Tópico da Estrutura de Pensamento da pessoa; tanto pode ser um tópico isolado, quanto mais de um, associando-se e criando amálgamas que se apresentam como um fenômeno.

Vou dar um exemplo simples: digamos que você seja um médico e está atendendo um paciente que o procura com frequência, então, como médico, você tem uma crença (Pré-Juízo) de que este paciente que padece de alguma dor, vem em busca de uma solução, um alívio… quando na verdade, este paciente em especial, usa a própria doença como uma maneira de interação com os outros, é pela dor, pela doença que ele interage com amigos e familiares, é um Dado de Semiose da pessoa, pois quando esse paciente adoece, vai ao médico, então acaba tendo assunto para contar aos amigos e familiares, não sabe outro modo de se expressar, a não ser falar da sua dor, da sua doença, dos exames que fez, dos remédios que está tomando, sobre como será o tratamento; para este paciente hipotético, digamos que também pode ser uma maneira de afetividade, pois ele se sente acolhido, recebe atenção quando adoece. Então, digamos que você como um bom médico, fez a este paciente um bom tratamento que o curou, o que acontece? Ele acabou perdendo seu veículo de comunicação, não terá mais a sua maneira de se expressar via doença, sentirá que não está recebendo a mesma atenção da qual gosta, quando adoece. Talvez, este paciente retorne ao seu consultório, padecendo novamente, da mesma coisa, ou de algo novo e, se fica “curado”, adoece novamente e, então, retorna, e assim sucessivamente…

Nesse exemplo específico, e só neste exemplo, pois cada caso é um caso, quando o médico julga que “curou” seu paciente, na verdade ele o deixou “padecendo”, pois lhe cortou os canais de Expressividade, cujos quais, estamos supondo no exemplo deste caso, ser de grande importância na vida desta pessoa. Será que nesse caso, não é quando o paciente está “padecendo” como “doente”, com suas dores, que ele recebe os afetos dos quais gosta, interage com as pessoas sentindo-se “especial” por estar adoentado e, com isso, sente-se, quem sabe mais “feliz”, ou realizado, dentro daquilo que para a Estrutura de Pensamento desta pessoa específica, entende-se como realização, ou seja, dentro dos critérios mais condizentes com aquilo que a pessoa é, verdadeiramente? Nesse caso as coisas não seriam ao contrário: a doença deveria se chamar “cura” e a “cura” representaria a “doença”? Por que não investigar se existiriam outras possibilidades, quem sabe trabalhar questões relacionadas à Expressividade, se fosse possível, de acordo com a Historicidade, trabalhar novas Semioses, trabalhar também questões relacionadas à Interseção entre Estruturas de Pensamento (Relações). Enfim, se esse fosse o Assunto Último da vida deste paciente imaginário, trabalhar-se-ia, não a própria corporeidade em si, mas o corpo como um canal de comunicação e expressão, ligado às afetividades da pessoa quando em interação com os outros.

Para nem todos será assim, para cada um é de uma maneira diferente, por isso a importância de averiguarmos com cuidado as particularidades de cada caso.

A premissa da Filosofia Clínica de que cada pessoa tem sua história de vida, que lhe é única e de mais ninguém, bem como sua própria Estrutura de Pensamento (EP) que também lhe é exclusiva, pode ser facilmente constatada pelos profissionais da saúde. Vejamos: uma Nutricionista está atendendo duas pessoas cujo objetivo é perder peso, para ambas foi prescrito basicamente a mesma dieta. Uma está seguindo as orientações com afinco, está praticando exercícios físicos, possui determinadas condições de metabolismo, de genética e do próprio jeito de ser por conta da sua Historicidade que lhe são favoráveis; a outra pessoa, seguiu as orientações na primeira semana, depois não teve “fôlego” suficiente para continuar seguindo as orientações, em sua rotina não houve espaço para incluir a prática de atividades físicas, bem como suas condições metabólicas e sua pré-disposição genética não são tão favoráveis, seu jeito de ser é completamente diferente da primeira pessoa e logicamente sua história de vida também. Sendo assim, fica mais fácil perceber que mesmo que as duas pessoas tenham recebido um “tratamento” muito semelhante para praticamente o “mesmo” problema que, – neste exemplo, seria perder peso, a situação existencial de cada pessoa é muito diferente, portanto como poderíamos esperar por resultados iguais?

É por isso que na Filosofia Clínica, trabalhamos com a singularidade de cada pessoa, antes de qualquer coisa, precisamos entender aquela pessoa dentro do contexto que ela vive (Bases Categoriais), conhecer a história de vida dela, contada por ela mesma (Historicidade), para então chegarmos a sua Estrutura de Pensamento (EP) que é tudo aquilo que está na pessoa. Só a partir daí é que o trabalho clínico pode começar com segurança, com base nos fundamentos e métodos filosóficos.

Sabemos que por conta da caraterização do trabalho que é próprio de cada área, muitas vezes não há tempo hábil para o profissional da saúde conhecer seu paciente com uma profundidade “filosófica”, ouvir e estudar toda a história de vida da pessoa, sendo assim, este artigo se propõe muito mais, a ser um alento aos profissionais da saúde, que talvez, em algum momento, já tenham se questionado sobre os resultados obtidos com seu trabalho em alguns casos específicos, ou o porquê daquilo que parece funcionar para uma maioria, ser pouco eficiente e não conseguir ajudar em nada determinado paciente, contrariando todas as estatísticas favoráveis a este tipo de tratamento.

A Filosofia pode contribuir com os profissionais da Medicina, da Enfermagem, da Fisioterapia, da Nutrição, da Psicologia, da Odontologia, das Terapias Alternativas, a ampliar os horizontes da clínica, criando novas alternativas, quando as coisas parecerem não estar funcionando a contento, a refletir filosoficamente sobre os casos atendidos, pensando sobre o que talvez nunca tenha sido pensado e, poderá vir à tona criando soluções novas para casos novos. A pesquisa e a ciência só têm a ganhar com isso! Regras e fórmulas prontas de trabalho, só servem se acreditarmos piamente que uma pessoa é exatamente igual a outra. E essa crença já está bastante ultrapassada para os nossos dias, sem contar que se trata de uma falácia.

Por fim, gostaria de fazer um esclarecimento quanto às nomenclaturas usadas neste artigo, como “paciente”, “saúde”, “doença”, “cura”, “patologia”… Ressalto que tais nomenclaturas só foram utilizadas neste artigo por pertencerem à área da saúde, que foi a temática desses escritos, em uma conversação com a Filosofia Clínica, pois se tratássemos somente da Filosofia Clínica, utilizaríamos outros termos, a filosofia tem uma linguagem específica, mas às vezes, toma por empréstimo, termos das áreas com as quais se propõe a fazer conversações, a fim de  tornar o diálogo mais claro e acessível.

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Fonte: Publicado em 18 de julho de 2013 no tamanho 940 × 360 em EUREKA! por Elza Tamas. Disponível em: . Acesso em: 26 abr. 2018.