História da Loucura na Idade Clássica

 Em Artigos Diversos, Filosofia

Pieter Bruegel, Die Dulle griet, 1563

HISTÓRIA DA LOUCURA NA IDADE CLÁSSICA, Histoire de la folie à l’âge classique, 1961.

Michel Foucault, 1926-1984.

Essa tese de doutorado não é, como parece indicar o título, uma história da psiquiatria, mas uma história das atitudes de segregação e de exclusão da loucura na Europa ocidental.

A primeira parte da obra analisa o fenômeno do internamento e as diversas significações dessa prática. Foucault mostra que, embora a lepra desapareça do mundo ocidental no fim da Idade Média, sendo sucedida pela loucura, é só depois de mais ou menos dois séculos que esse novo tormento provoca reações de segregação, exclusão, purificação. A loucura só será disciplinada em meados do século XVII, quando o grande confinamento a subtrai à liberdade imaginária que lhe permitia fervilhar ainda sob os céus do Renascimento e a condena ao silêncio.

O classicismo inventou o internamento, mais ou menos como a Idade Média inventara a segregação dos leprosos. Confinam-se os loucos, mas também os pobres, os desocupados, os ociosos, os homossexuais, os libertinos.

Ao anexar ao campo da desrazão, ao lado da loucura, as proibições sexuais, os interditos religiosos, as liberdades de pensamento e sentimento, o período clássico formava “uma experiência moral da desrazão”, que constitui o alicerce de nosso conhecimento “científico” sobre a doença mental.

A segunda parte da obra é dedicada ao problema do reconhecimento e do conhecimento da loucura no período clássico.

Foucault mostra que, se de um lado a loucura é sentida como desrazão – ou seja, como negatividade vazia da razão -, por outro a análise médica vai tentar conferir-lhe uma determinação positiva. Configura-se um grande trabalho de classificação, animado por uma metáfora constante que tem a amplitude e a obstinação do mito: é a transferência das desordens da doença para a ordem da vegetação. É preciso organizar e ordenar as doenças mentais em classes, gêneros e espécies, com o mesmo cuidado e a mesma exatidão com que os botânicos fizeram o Tratado das plantas. O louco encontra-se, assim, no jardim das espécies. Ao mesmo tempo, alguma coisa que logo se transformará em clínica está começando a inaugurar-se. Organizam-se tratamentos voltados para a unidade indissociável de corpo e alma. Procura-se fortificar, vivificar as fibras nervosas, as membranas, todos os elementos do organismo considerados capazes de estabelecer a comunicação entre corpo e alma (uso do ferro, em especial). Sonha-se com a purificação total: uso de mel, fuligem de chaminé, açafrão, tatuzinhos e pó de patas de lagostim como dissolventes de todas as fermentações que, formadas no corpo, determinam a loucura. Apela-se para a imersão: duchas, tratamentos por banhos. Nesses tratamentos, estabelece-se entre o médico e o doente um confronto que vai possibilitar a psiquiatria de observação.

Na terceira parte, Foucault analisa o duplo movimento de libertação e alienação da loucura pela medicina mental moderna. No século XVIII, o pavor diante da desrazão é acompanhado por um medo específico da loucura. Esta é agora percebida como um sinal da precariedade de uma razão que pode vacilar a todo instante. A partir daí, os loucos se apartam, como por iniciativa própria, e ocupam um lugar que lhes pertence propriamente. Aparecem os primeiros asilos, que de início despertam curiosidade, depois compaixão e por fim, no século XIX, o humanitarismo e a solicitude social. É o grande movimento de reforma promovido por Pinel e Tuke: inquérito dos comissários, constituição de grandes hospitais. E logo vem a época de Esquirol e da “ciência” médica da loucura.

Mas se a loucura teve finalmente reconhecidos os seus direitos, foi para ser imediatamente reinserida nas normas sociais da burguesia. Pinel e seus seguidores, em vez de libertarem o louco, tornaram-no definitivamente alienado. A coação física foi substituída pela coerção moral exercida pelo médico. Quanto à ciência psiquiátrica, aboliu qualquer expressão própria da loucura e conferiu ao louco a posição de puro objeto.

Em conclusão, Foucault mostra que a psiquiatria, ao querer domesticar a loucura, na verdade impediu-se de compreendê-la. Esta se manifesta com todo o seu vigor criativo em Nerval, Nietzsche, Van Gogh, Artaud… Ardil e novo triunfo da loucura, que escapa a medidas e justificações por parte da psicologia.

História da loucura consagra uma nova abordagem do poder e da política. Foucault mostra a razão como uma das figuras do poder, que funciona como um modelo de exclusão e permite a dominação do homem pelo homem. Essa obra também teve influências práticas. Contribuiu para acelerar a crise do movimento psiquiátrico e reforçou a posição de antipsiquiatras como Laing e Cooper.

Edição brasileira: História da loucura na idade clássica, São Paulo, Perspectiva, 1972.

Estudo: H. Dreyfus e P. Rabinow, Michel Foucault, un parcours philosophique, Gallimard, 1984.
Este artigo foi publicado anteriormente neste site em 5 de janeiro de 2009.

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