O Novo Espírito Científico – Gaston Bachelard

 Em Artigos, Filosofia

GASTON BACHELARD, 1884-1962.

O Novo Espírito Científico, Le Nouvel Esprit Scientifique, 1934.

“É no momento em que um conceito muda de sentido que ele tem mais sentido”: e quando a ciência muda de orientação e de organização conceituais o seu sentido deve ser determinado por uma filosofia que
aceite, ela também, voltar a discutir seus principais conceitos, buscar novos fundamentos, reformulando-se. Tal é a filosofia que O novo espírito científico promove e realiza, pois, agora, realização é a característica científica mais importante da realidade, à qual ela se substitui. Bachelard aplica de algum modo o princípio de exclusão de Pauli à filosofia que ele constitui: a exclusão sistemática do mesmo, o apelo ao outro.
Uma das condições dessa filosofia é, pelo lado do sujeito, a existência e a manutenção de uma dúvida recorrente a respeito do passado de conhecimentos seguros; pelo lado do objeto, o reconhecimento da ideia de complexidade nos fenômenos elementares da microfísica contemporânea: não se trata tanto de procurar, como Descartes, explicar o mundo, porém mais de complicar a experiência. A molécula não é uma simples justaposição de átomos; ela possui propriedades que só pertencem ao conjunto: “Ao invés de o ser ilustrar a relação, é a relação que ilumina o ser.” Para a consciência da ciência contemporânea, a noção mesma de “noção básica” aparece como algo que deve ser questionado; é sempre preciso inferir, e não descobrir, as bases do real. É nisso que essa epistemologia não cartesiana se opõe não a Descartes, mas a
suas “naturezas simples”. Visto que aplicação é complicação, a filosofia aplicada à ciência contemporânea que daí se depreende é uma filosofia dualística: no diálogo que instaura entre experimentação e razão, os ensinamentos da realidade só valem à medida que sugerem realizações racionais.
O sentido do vetor epistemológico da ciência que se faz é claro: vai do racional ao real, e não do real ao racional, ou do real ao geral.
O que nesse contexto caracteriza a noção científica é seu grau de resistência, medido pela capacidade de deformação, transformação e correspondência que a extensão de sua aplicação revela. E pelo aumento do
pluralismo aberto que a ciência “progride” em sua tarefa de objetivação. Eis por que a filosofia a ela correspondente está em estado de crise permanente; para ela, estar em crise equivale a ser sempre jovem, a transformar-se reconstruindo a razão de suas razões.

Edição brasileira: O novo espírito científico, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1985.
Estudo: P. Ginestier, Bachelard, col. “Pour connaître la pensée de”, Bordas, 1987.

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