Por que uma vida CHEIA de informações às vezes pode ficar VAZIA?

 Em Artigos, Ensaios, Filosofia Clínica

De tempos em tempos, surgem certas “modas” em nossa sociedade. Uma moda que tem ganhado força recentemente e vem conquistando cada vez mais adeptos, é a de Compartilhar informações e prestar Solidariedade – Online.

Compartilhar, já nos soa tão natural, não é? Quando vemos algo que consideramos interessante, ou divertido, ou informativo, ou peculiar, ou o que quer que achemos; para muitos, a primeira coisa que surge à mente é: Compartilhar!

Como uma das consequências do mundo tecnológico, abriram-se as fronteiras da informação. Conhecimento valorizado, muitas vezes, passou a ser aquele que é compartilhado. Pergunte a um adolescente (caso você não seja um), – ou melhor, pergunte aleatoriamente à qualquer pessoa do seu círculo de relações – se um vídeo que ele(a) descobriu no Youtube e achou superinteressante, teria sentido se ele(a) não compartilhasse com alguém. Certamente, um bom número de pessoas de hoje, não veria o menor sentido em trancafiar as informações unicamente para si mesmas.

Imagine se pudéssemos levar um dos nossos jovens de hoje, através de uma máquina do tempo, para a sociedade Medieval, na qual Conhecimento era poder, era escondido, secreto, pertencente a poucos. Essa pessoa, contaria ao povo da Idade Média, que na sociedade do futuro (a nossa), da qual ele veio, tudo o que for informação que julgamos relevante, achamos “legal” compartilhar e, quanto mais uma informação é compartilhada, mais legal acreditamos que ela se torna. Imagine o espanto do homem medieval…

Acontece que os homens da Idade Média, não teriam como conceber, a velocidade e a quantidade de informações que processamos hoje, com os meios precários de disseminação de informação que eles possuíam na época.

A internet, atrelada à evolução dos smartphones e às redes sociais, são os meios utilizados por nós para pesquisar, criar e divulgar informações. Sem isso, muito provavelmente as informações não se reproduziriam em tamanha velocidade e quantidade.

Não sei qual a quantidade de bits que são processados por segundo no mundo todo, deve ser imensa. Caso você saiba, por favor, compartilhe comigo, eu gostaria de ter essa informação. Mas o que farei sabendo disso?

Essa é uma questão que mostra um dos papéis da Filosofia para os nossos dias: o que fazer com tanta informação? Para alguns a informação não serve para nada, não tem sentido (Filosofia), não tem valor (Axiologia), não faz pensar (Razão), não ajuda com os sentimentos (Emoções), não leva ao conhecimento (Epistemologia).

Informação, por si só, não é garantia de Conhecimento.  Estar informado sobre um assunto, nem sempre quer dizer que você “sabe”. À medida que as informações se multiplicam, – como que por “mitose” e “meiose”, tal se fossem células a se reproduzir frenética e alucinadamente, os indicadores que avaliam a Educação e os índices estatísticos que buscam mensurar a capacidade de discernimento dos brasileiros, têm trazido resultados que não são bons. A taxa de analfabetismo funcional no Brasil continua preocupante, apesar do aumento considerável no volume de informações disponíveis que são acessadas diariamente…

Segundo dados do Inaf, “o percentual da população alfabetizada funcionalmente foi de 61% em 2001 para 73% em 2011”[1], resultado que se manteve em 2015, conforme o mesmo relatório em 2015[2]. “Apenas 8% dos respondentes estão no último grupo de alfabetismo, revelando domínio de habilidades que praticamente não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais e resolvem problemas envolvendo múltiplas etapas, operações e informações”[3].

De acordo com esta pesquisa, apenas 8% puderam ser enquadrados no nível de alfabetismo considerado proficiente. Esse número nos dá uma ideia de como ainda é pequeno o número de pessoas (no caso do Brasil) que sabem o que fazer com facilidade de acesso à Informação e que são capazes de transformar Informação em Conhecimento.

De que adianta nos sentirmos inundados por uma avalanche de informações, se sentimos a vida vazia? De que vale ter acesso a todo tipo de informação, se não temos a capacidade de diferenciar o que é ou não ético para a vida (minha e do outro)?

A humanidade já evoluiu da fase de esconder as informações e restringir o conhecimento, já caminhamos no sentido de aprender a Compartilhar, falta ainda descobrir o que fazer com tantas informações. Segundo o filósofo, professor Lúcio Packter, uma indicação para as Bases Categoriais da nossa época, diz respeito à Seletividade. Isso também vale para as informações, precisamos aprender a selecionar aquilo que tem a ver conosco.

Por outro aspecto, Conhecimento, no sentido epistemológico, não é algo para todos, sabemos disso conforme os pressupostos teóricos da Filosofia Clínica. Cada um tem suas características, alguns transformam informação, por exemplo, uma música, em Emoções. Então por que ouvir músicas que lhe causam tristeza, se o que tem a ver contigo é alegria? Por que se informar sobre notícias de violências, catástrofes, se diz gostar de coisas da paz? Não seria muito melhor se informar sobre canções alegres, ou ver notícias sobre atos de paz ao redor do mundo?

Também não há nada de errado no contrário: há quem goste de filmes violentos, de notícias trágicas, de manifestações de sofrimento, àqueles cujo caminho existencial é o da dor, do pesar, por que então acreditar na ilusão de um mundo ideal de felicidade, se isso não tiver a ver consigo?

“Há felicidade para todos, mas não a mesma felicidade para cada um”. (BAUMAN, 2009, p. 155)

Seria uma atitude producente, viver de forma alienada seguindo parâmetros que a sociedade julga como “bom” ou “mau”? Será que os critérios de “certo” e “errado” não deveriam buscar afinidade com nossa trajetória existencial, de acordo com a nossa Estrutura de Pensamento, (desde que respeitados os limites éticos da vida humana)? Ou seria preferível escolher aquilo que mais têm afinidade conosco?

Poderíamos criar exemplos de como buscar informações que estivessem de acordo com cada Tópico de peso subjetivo para cada Estrutura de Pensamento (EP), mas isso tornaria o texto demasiado longo.

Então como também somos a sociedade que acelerou o tempo com a tecnologia, por exemplo, a ciência da publicidade que nos ensina que, para fazer sucesso a mensagem deve ser passada no menor tempo. Vídeos longos, não costumam ser assistidos até o fim, segundo nos dizem, estatisticamente os “youtubers” mais famosos.

E falando em “youtuber”, veja só, pessoa que tem como profissão fazer vídeos para o Youtube, será que essa profissão já faz parte do Cadastro Brasileiro de Ocupações? Parece que a legislação, assim como a Educação, nunca alcançam o desenvolvimento tecnológico, estão sempre atrasadas correndo atrás, na minha opinião. Essa é apenas uma opinião e ter opinião, também passou a ser algo considerado bom, pela nossa sociedade atual.

Além disso, a opinião pública passou a ter relevância na hora de comprar um produto, escolher um restaurante ou reservar um hotel pela internet, por exemplo. Consumidores lesados, acabam dando notas baixas para empresas que agiram desonestamente, o que acaba inibindo tais práticas e fazendo com que as empresas se esforcem para prestar bons serviços, serem bem avaliadas pelos usuários, para que isso as faça crescer ainda mais.

Estamos esquecendo o poder da propaganda das empresas/ produtos/ serviços que podia mentir à vontade para os consumidores na década de 90, hoje o que faz sucesso é a opinião de consumidores anônimos, que juntos vêm ganhando cada vez mais força.

Sobre isso, trago mais alguns exemplos: lembremos das milhares de manifestações de solidariedade online que eclodiram pelo mundo quando do acidente com o avião da Chapecoense, e em especial, por termos tido acesso através da tecnologia, às informações de como o povo colombiano foi solidário e emocionou o mundo: Muchas gracias a todos los hermanos colombianos! Até mesmo uma tragédia, teve o poder de se transmutar em caminho para a Solidariedade. Naqueles dias, logo depois do ocorrido, não se via mais aquela sociedade competitiva, refletida na rivalidade dos jogos de futebol, mas o que se via, era a sociedade solidária, a sociedade que compartilha conhecimento, a sociedade que expõe opiniões e avalia a qualidade dos produtos ou serviços com honestidade pela internet. Pode parecer paradoxal ver algo do Belo perfilhado no Trágico, mas a vida, às vezes, também é feita de paradoxos.

Mais um exemplo de solidariedade que surgiu no advento das redes sociais, é a gratuidade de muitos serviços e aplicativos. Por isso, mais uma vez, lembremos dos ensinamentos da Filosofia Clínica sobre Seletividade. Assim como tem muita coisa útil e boa (de acordo com cada EP), também existe muito lixo por aí. É preciso saber escolher, ser seletivo, saber o que tem a ver consigo mesmo, descobrir a própria alma.

E já tem quem se descobriu e revelou a própria alma, fez disso uma Busca e pegou carona nessa onda das redes sociais, pois descobriu o espírito solidário do Compartilhar, presente na internet. Existem sites de doações que financiam projetos, usuários decidem doar qualquer valor em dinheiro para ajudar outros usuários que compartilharam seus sonhos em busca de ajuda financeira para realizá-los. Fiquei sabendo da história de um casal que decidiu viajar pelo mundo apenas com dinheiro doado por internautas, em troca eles fazem vídeos compartilhando a opinião deles, dando dicas, sobre os lugares visitados.

A sociedade baseada na Competitividade, está ficando para trás, me parece, que cada vez mais, estão surgindo por aí atos de uma sociedade da Partilha – Compartilhar, que quer dizer partilhar com outro. Em algumas áreas, ainda há sim certo atraso e muita competitividade, mas em outras, como a informática e internet, que são o exemplo mais notório, o ato de compartilhar já é absolutamente natural.

Embora mesmo nesse âmbito das redes sociais online, há quem ainda compete, mesmo que intimamente, por “Likes” em suas publicações nas redes sociais. Mudaram os meios, as formas de competir, mas o espírito da Competição ainda não desapareceu por completo da nossa sociedade.

Quando falamos em evolução da sociedade, frequentemente, podemos fazer certos equívocos, por exemplo, o de julgar que o Homem das Cavernas foi mais violento do que nós, pois agredia com paus e pedras quem o desapontasse, e hoje nós não fizemos mais isso, aprendemos com os manuais do que é politicamente correto, de que agredir fisicamente é grotesco para nossos dias; contudo, a maneira encontrada para lidar com a frustração às vezes é fazer difamações, ou discutir pelas redes sociais: o sentimento de violência e vingança, por vezes, continua o mesmo, só trocou-se o pau e a pedra, pela internet e o smartphone.

Mas essa é uma análise sociológica, sendo que em Filosofia Clínica é muito diferente falar em evolução, pois o que se considera é a evolução de cada um ao longo da própria história de vida. Chama-se Partilhante aquele que partilha a própria história de vida com alguém. O que você tem partilhado de si com mundo? Qual o tamanho das fronteiras da Seletividade para com as informações que são permitidas de entrar em seu mundo? Em que ponto da história da humanidade a sua existência estaria melhor?


 

[1] Instituto Paulo Montenegro. INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional. (Relatório 2011/2012) Disponível em: http://www.ipm.org.br/pt-br/programas/inaf/relatoriosinafbrasil/Paginas/inaf2011_2012.aspx Acesso em 27 Jan 2017.

[2] Instituto Paulo Montenegro. INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional. (Relatório 2015). “A quantidade de pessoas classificadas como alfabetizadas funcionalmente alcança 73% da população investigada, o que também revela a manutenção do resultado obtido em 2011 no Inaf Brasil” (p. 07). Disponível em: http://www.ipm.org.br/pt-br/programas/inaf/relatoriosinafbrasil/Paginas/Inaf-2015—Alfabetismo-no-Mundo-do-Trabalho.aspx Acesso em 27 Jan 2017.

[3] Instituto Paulo Montenegro. INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional. (Relatório 2015 – pág. 07). Disponível em: http://www.ipm.org.br/pt-br/programas/inaf/relatoriosinafbrasil/Paginas/Inaf-2015—Alfabetismo-no-Mundo-do-Trabalho.aspx Acesso em 27 Jan 2017.


REFERÊNCIA

 BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
Posts Recentes

Leave a Comment

Contate-nos

Aqui você pode enviar um e-mail.

Not readable? Change text.

Start typing and press Enter to search