Problemas: Quem nunca os teve?

 Em Artigos, Filosofia, Filosofia Clínica

Acredito que alguns problemas tenham sido importantes como ‘motores’ que fizeram o mundo girar. Penso que desde os primórdios da história da humanidade, a evolução começou a partir das dificuldades, ou seja, dos problemas.

Mas afinal, o que é um problema? Como podemos definir o que é um problema? Seria possível definir o que é um problema sem cair em um relativismo absoluto ou em regras que limitam uma compreensão mais ampla? Existiriam características básicas presentes nos problemas, sendo que seriam estas as que caracterizariam ou não um problema?

De acordo com o dicionário de filosofia Abbagnano (2000, p. 796), problema, “em geral, é qualquer situação que inclua a possibilidade de uma alternativa”. Sendo assim, gostaria de ressaltar que questões complexas como estas acima, possuem uma margem enorme de interpretações. Interpretações essas, decorrentes da linguagem que utilizamos em nossa comunicação, através de signos e significados que, às vezes, podem ser incapazes de traduzir as complexidades da vida humana.

No caso da palavra (signo) problema, a significação é vasta e complexa ao definir o que é um problema por um viés filosófico, já que conforme o senso comum, um problema é algo ruim, uma dificuldade que pode ser grande ou pequena, facilmente reconhecível ou não, por ser incerto ou duvidoso em maior ou menor grau. Subjetivamente pode não ser uma tarefa fácil determinar se um “problema” é mais ou menos difícil. Para alguns indivíduos quanto maior o número de opções maior a dúvida e mais difícil se torna a resolução de um problema, já para outros, podem considerar subjetivamente mais complicada a escassez de opções, a falta de alternativas à solução de um problema. Tentando pensar de acordo com o senso comum o reconhecimento do tamanho de um problema pode ser difícil. Contudo, será que ao questionarmos filosoficamente, um problema é realmente algo ruim ou difícil? E se acontecer de determinado problema, no fundo trazer algo bom para a vida de certa pessoa, faria ainda sentido usarmos como vocabulário “problema” para algo que trouxe uma coisa boa àquela pessoa?

Para tratar sobre essa questão de linguagem em torno da palavra Problema, vamos começar analisando o que traz um dicionário da língua portuguesa. Segundo o Dicionário Aurélio (do Grego próblema, pelo Latim problema) é uma “questão não solvida e que é objeto de discussão, em qualquer domínio do conhecimento”, ou “proposta duvidosa que pode ter numerosas soluções”, ou ainda, “qualquer questão que dá margem a hesitação ou perplexidade, por difícil de explicar ou de resolver”.

Essas três definições da palavra problema nomeiam algo que provavelmente várias pessoas conhecem. A primeira definição diz que um problema é um objeto de discussão, podemos citar em níveis sociais, os problemas da educação ou políticos de determinada sociedade que passam por discussões; ou em menor instância, no nível intrafamiliar, as discussões de um casal sobre o relacionamento entre eles ou com os filhos; no aspecto individual pode ser um problema existencial que alguma pessoa vivencie intimamente e discuta sobre isso consigo mesma, em suas ideias e pensamentos.

A outra parte desta primeira definição da palavra problema, diz que tal questão pertence a qualquer domínio do conhecimento, então, pode ser desde um problema matemático buscando por uma solução lógica, um problema na área da saúde, um problema de consertar algo quebrado, de tomar uma decisão difícil na vida ou no trabalho; independente da área há problemas. Cada área da vida humana tem problemas que lhe são peculiares. A Filosofia, por exemplo, tem problemas de natureza filosófica que deram origem as famosas questões como: De onde viemos? Para aonde vamos? Quem somos? O que é a verdade? Eis aqui um dos grandes problemas filosóficos: porque os seres humanos desejam saber?

Usamos então uma das respostas a essa questão fornecida por um dos maiores filósofos que já existiram, nascido na Grécia, em Estagira, Aristóteles. Para quem o desejo de saber é próprio da natureza humana:

Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias, e progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores: por exemplo, as mudanças da Lua, as do Sol e dos astros e a gênese do Universo. Ora, quem duvida e se admira julga ignorar: por isso, também quem ama os mitos é, de certa maneira, filósofo, porque o mito resulta do maravilhoso. Pelo que, se foi para fugir à ignorância que filosofaram, claro está que procuraram a ciência pelo desejo de conhecer, e não em vista de qualquer utilidade. Testemunha-o o que de fato se passou. Quando já existia quase tudo que é indispensável ao bem-estar e à comodidade, então é que se começou a procurar uma disciplina deste gênero. É pois evidente que não a procuramos por qualquer outro interesse mas, da mesma maneira que chamamos homem livre a quem existe por si e não por outros, assim também esta ciência é, de todas, a única que é livre, pois só ela existe [por si] e por tal razão, poderia justamente considerar-se mais que humana a sua aquisição (ARISTÓTELES, p.  214 – 215, 1973).

Segundo Nicola (2005, p. 85) falando de Aristóteles neste livro Metafísica, diz que o desejo de saber é próprio da natureza humana e nasce do assombro diante dos fenômenos da natureza mais simples que antes se passavam despercebidos e que aos poucos vai se desdobrando em problemas mais complexos. Ainda conforme Aristóteles, como o filosofar é uma atividade desinteressada, não necessariamente útil para a resolução dos problemas da vida prática, de sobrevivência, por exemplo. É o amor puro ao conhecimento, ao saber, sem um interesse prático, é pura atividade contemplativa que leva ao afastamento do senso comum justamente por causa do espanto que por sua vez leva ao filosofar, ao problematizar sobre o conhecimento e se afastando da opinião do senso comum.

A segunda definição da palavra problema que encontramos no dicionário Aurélio, diz que é uma “proposta duvidosa que pode ter numerosas soluções”. Era exatamente essa a definição indicada para o que estava sendo falado no início deste texto.

Logo, do meu ponto de vista, ao conversar com pessoas, acaba sendo comum ouvir queixas a respeito de problemas pelos quais estejam passando, mas isso é apenas uma especulação baseada em contatos pessoais e em situações singulares ou particulares; do contrário, costuma ser mais raro a convivência com um grande número de pessoas que se alegram por ter determinado problema; é rotineiro ver a maioria das pessoas encarando seus próprios problemas através de uma carga pesada e negativa ao invés de algo positivo.

Por outro lado, esta é uma constatação minha, não quer dizer que seja uma regra, há muitas pessoas, portanto, muitas maneiras para expressar os problemas vivenciados. Ainda é preciso levar em conta os ensinamentos filosóficos clínicos de que cada pessoa é única, e cada situação é uma situação nova e diferente.

Também falaremos mais adiante do que o filósofo Schopenhauer trouxe em sua obra O Mundo Como Vontade e Representação: o mundo é uma representação de cada um. Assim, alguém pode considerar algo ou alguma situação “X” como um problema negativo, insuperável, perigoso, com saídas não cabíveis ou sem vislumbre de alternativas. Já outro alguém pode considerar praticamente a mesma situação “X” a partir de sua própria representação de mundo e, partindo desses filtros intelectivos não considerar como sendo algo tão insuperável, mas sim, por exemplo, uma oportunidade de aprendizado, de superação de obstáculos que dá um “tempero” especial e positivo à situação.

Inclusive, talvez seja mais fácil começar olhando pela história da humanidade, pelos grandes problemas que foram enfrentados e que somente por causa da existência de tais problemas é que foram encontradas soluções. Por exemplo, quando vamos tomar um banho, ligamos o chuveiro e água sai quentinha em um dia frio, é óbvio que nem sempre foi assim, e que tempos atrás isso, quem sabe, deve ter sido um problema que motivou alguém a inventar algo para aquecer a água a fim de tornar o banho mais confortável. Acredito que o conforto da vida contemporânea, graças as descobertas científicas e tecnológicas, provavelmente ocorreram porque certas pessoas decidiram ver alguns “problemas” como possibilidades de criação de algo que consideravam melhor.

Porém, afirmar que um problema “sempre” traz consigo uma solução é uma frase já muito remoída pelo senso comum e bastante divulgada pela literatura de autoajuda, contudo, é preciso tomar cuidado para não cair em certas armadilhas quando os problemas assolarem, ficando inerte diante de um problema que precisa de movimento, ou seja, transformando essa ideia em um pré-juízo capaz de engessar as ações que o problema pode exigir da pessoa, conforme for o caso.

Isso quer dizer que cada caso será diferente, e por isso, necessita de um estudo conforme suas especificidades. Em minha pesquisa, formada com base nos estudos em Filosofia Clínica, acredito que existe uma natureza praticamente infinita para cada problema. E como cada pessoa percebe o mundo de uma maneira exclusiva, também será única a sua forma de perceber, entender e lidar com os problemas.

Por fim, vejamos o que traz o dicionário de filosofia (ABBAGNANO, 2000) sobre o vocábulo Problema:

O problema não tem necessariamente caráter subjetivo, não é redutível a dúvida, embora, em certo sentido, a dúvida também seja um problema. Trata-se mais do caráter de uma situação que não tem significado único ou que inclui alternativas de qualquer espécie. Problema é a declaração de uma situação desse gênero (p.796).

Este artigo não tem a pretensão de indicar uma percepção a ser julgada como verdadeira ou correta sobre a natureza do Problema ou dos Problemas, tão pouco esgotar este assunto, mas sim propor um estudo mais apurado sobre este tema complexo e relevante.

O OBJETIVO, OU TALVEZ ALGO SOBRE UM “OBJETO”

O objetivo deste artigo é apenas refletir sobre os Problemas da existência humana, de acordo com a Filosofia Clínica de Lúcio Packter e tentando um possível diálogo com os fundamentos teóricos da Fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty e O mundo como vontade e representação de Arthur Schopenhauer, fazendo um exercício de reflexão sobre um fenômeno que pela percepção humana, costuma ser nomeado como Problema.

Definir Problema em Ponty e em Schopenhauer é uma questão bastante difícil. Não vamos entrar na explicação do leque de questões que se abririam com essa pergunta, pois, no mínimo, precisaríamos da quantidade de linhas de outro artigo para poder tratar e fundamentar tudo.

Merleau-Ponty, estudioso da filosofia de Husserl tem apreço pelas questões ontológicas para assim poder chegar ao problema do conhecimento, ou do corpo e do transcendental. O viés que escolhemos de Ponty para o presente trabalho é a problemática central de sua filosofia, ou seja, o próprio problema do conhecimento.

Da percepção dos fenômenos, baseando-se no campo filosófico chamado “fenomenologia” que tenta observar os objetos olhando para os próprios objetos. Embora pareça que o “objeto” ou o “fenômeno” sejam o centro da investigação de Ponty, não é somente isso, há ainda o homem, seu corpo e a maneira como são percebidos os fenômenos, dentre outros que fazem parte das questões e problemas que Merleau-Ponty desenvolve em seus escritos.

De outro lado, um dos problemas fundamentais em Schopenhauer é também o problema do conhecimento a partir de uma concepção idealista: “O mundo é minha e representação” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 9), ou seja, onde há uma relação mútua entre o sujeito e o objeto:

Estas duas metades são, portanto, inseparáveis, mesmo em pensamento; cada uma delas apenas e real e inteligível pela outra e para a outra; elas existem e deixam de existir em conjunto. Elas limitam-se reciprocamente: o sujeito acaba onde começa o objeto. (SCHOPENHAUER, 2001, p. 11-12).

Mais uma vez, para discorrermos sobre um dos problemas centrais da filosofia de Schopenhauer, que segundo a maioria dos comentadores, seria a porta de entrada para a filosofia do filósofo, é que neste estudo precisaríamos de mais algumas páginas e talvez de um novo artigo sobre a “representação”. Além disso, há algo que chama atenção, que é o provável “não problema” que Schopenhauer logo no início de sua obra mestra O mundo como vontade e representação apresenta. Que é a tentativa de deixar afastado o dogmatismo idealista (aquele que o sujeito define o objeto unilateralmente). Schopenhauer coloca sujeito e o objeto como partes interdependentes. Onde a representação mental (vontade) depende sempre do ponto de vista, dada em certo momento e certo contexto, ou seja, não é universal. Com base nisso, o grande problema (ou um dos grandes problemas) filosófico(s) para Schopenhauer é também o problema do conhecimento.

UMA MERA JUSTIFICATIVA (Para quem precisa…)

A escolha deste tema justifica-se porque os problemas parecem ser algo comum a todos, por mais diversa que possa ser a natureza deles, ou a percepção que cada um de nós tem sobre os problemas, é fato, de que é algo complicado. De acordo com a última definição que trouxemos acima, é: “qualquer questão que dá margem a hesitação ou perplexidade, por difícil de explicar ou de resolver”.

Seja com hesitação ou perplexidade, ou qualquer outro sentimento ou raciocínio, ou o que quer que seja, perguntamos: Qual a melhor maneira de lidar com os problemas? Os problemas precisam, necessariamente, ser compreendidos? Como definir o que é um problema?

Como o conceito de Problema já é vasto em si, algumas vezes utilizo-me do termo no plural para enfatizar ainda mais a complexidade deste universo de problemas. Refiro-me como ‘universo de problemas’, pois há uma infinidade de problemas singulares que juntos pluralizam-se em quantidade, embora mantenham suas especificidades. Neste caso, não quer dizer que ao empregarmos a palavra Problema, como se em um coletivo, estejamos homogeneizando os mesmos, pelo contrário, eles se mantêm singulares, mesmo fazendo parte de um conjunto categorial nomeado por Problema.

DIALOGANDO COM OS AUTORES

Na história da Filosofia, o tema Problema é bastante antigo. Segundo consta no Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2000), alguns geômetras provavelmente da escola de Platão, acreditavam que sua ciência era constituída essencialmente por problemas, já outros, acreditavam que era constituída por teoremas. Sendo assim,

A noção de problema foi elaborada pela matemática antiga, que a distinguiu da noção de teorema. Por problema entendeu-se uma proposição que parte de certas condições conhecidas para buscar alguma coisa desconhecida (p.796).

O famoso filósofo Aristóteles definiu o Problema como um “procedimento dialético que tende à escolha ou à recusa, ou também à verdade e ao conhecimento, no qual as palavras ‘escolha’ ou ‘recusa’ significam alternativas que se apresentam aos problemas de ordem prática, enquanto ‘verdade’ e ‘conhecimento’ designam alternativas teóricas” (ABBAGNANO, 2000, p.796).

Com isso, podemos interpretar e dividir a temática do Problema em dois campos: os problemas de ordem prática (escolha ou recusa) e os problemas de alternativas teóricas (verdade e conhecimento). Os primeiros, pertencem à vida que podemos nomear como mais “rotineira”, na qual podemos relacionar, em uma primeira impressão superficial, com o entendimento da teoria do filósofo brasileiro, Lúcio Packter, as chamadas Autogenias Horizontais que são os deslocamentos (ou não) da Estrutura de Pensamento (E.P.) dentro de um mesmo patamar de vizinhanças existenciais[1]. Mesmo quando acontece uma mudança ou movimento de tópicos da Estrutura, eles não são capazes de provocar uma mudança de patamar existencial. Ao contrário das Autogenias Verticais que demonstram mudança de patamar, na vertical, tanto para baixo ou para cima. Conforme podemos visualizar na seguinte ilustração[2]:

A ilustração da bolinha dentro de um gráfico com uma onda mostra que uma EP está em um patamar horizontal que permite variações autogênicas verticais tanto para cima quanto para baixo. As variações são normais e acontecem dentro do padrão específico em que a pessoa está. Como exemplo seria um dia acordar feliz, olhar as flores, a paisagem e sentir-se de bem com a vida. Já no outro dia acorda chateado com uma bobagem qualquer, não vê graça nas coisas, tudo parece chato. Alegria e chateação participam de uma mesma realidade são vizinhos, apenas opostos entre si. (PACKTER, 2013, p. 32).

Cabe aqui abrir um parêntese para dizer que como esses conceitos das Autogenias ainda são bastante novos, talvez possam parecer um tanto confusos em um primeiro contato para o leitor que não teve contato com a Filosofia Clínica; isso é um processo natural e pode levar algum tempo até que se desenvolva certa fluência dentro destes novos conceitos em Matemática Simbólica. Sobre isso, Paulo (2001, p. 159), diz que a Matemática simbólica,

É o uso de símbolos (signos) matematizáveis em clínica. A Matemática Simbólica é a apreensão do todo, lida com universais, serve para trabalhar com grupos, instituições, cidades, sociedades, épocas. Ela pode lidar com conteúdos e permite a tipologia. Em contrapartida, trabalha com uma extensão muito maior tornando a compreensão pequena.

Voltando ao nosso assunto em questão, já os problemas de alternativas teóricas, relacionados à verdade e ao conhecimento, pertencem ao campo da Filosofia, por haver uma relação com o amor à sabedoria, ou seja, são os problemas ou questionamentos de ordem mais filosófica[3].

Em uma aula ministrada pelo professor Lúcio Packter, ele explicou aos alunos que o termo Autogenia diz respeito à organização entre os tópicos da Estrutura de Pensamento (EP)[4], cuja nomenclatura vem da química. Na ocasião, o professor Packter explanou aos alunos do curso de Pós-Graduação em Filosofia Clínica que as Autogenias Horizontais tratam de problemas mecânicos e as Autogenias Verticais são para aspectos (problemas) mais elevados, menos densos.

Quando trabalhamos questões específicas da Estrutura de Pensamento, elementos e ajustes pontuais através de procedimentos submodais convencionais, estamos trabalhando com aquilo que denominamos de Autogenias Horizontais. Nestes movimentos não se alteram os patamares autogênicos verticais e, portanto, a densidade estrutural da EP, mas apenas se corrige algum fator ou se desloca horizontalmente a EP dentro do mesmo patamar autogênico em que ela se encontra. De forma simplificada, a EP se move horizontalmente adequando-se a novos elementos daquele mesmo patamar autogênico. É frequente em consultório nos depararmos com alterações autogênicas de natureza horizontal, onde esta EP dirige-se para uma localização existencial na qual as vizinhanças apresentem menos conflitos ou que lhe sejam mais interessantes existencialmente.  (PACKTER, 2013, p. 31).

Assim, de acordo com os estudos em Filosofia Clínica, mais especificamente no campo da Matemática Simbólica e dentro deste, nas Autogenias, encontraremos variações que vão ao infinito, conforme o padrão autogênico de quem ‘percebe’ um problema qualquer. Haverá inclusive patamares autogênicos em verticalidades mais elevadas, dos quais não trataremos neste artigo – cuja nomenclatura “problema” já não existirá mais, a percepção das coisas será tão outra, nesse caso, que chamar algo de “problema”, simplesmente, não fará sentido algum.

Mas, para uma época como a nossa, ainda faz bastante sentido tratar de coisas que convencionamos chamar de Problema. Contudo, mesmo ao nos atermos a Problemas de ordem mais “mecânica”, ou seja, dentro das Autogenias Horizontais, haverá variações imensas para cada pessoa, conforme a EP se estruturou ao longo da historicidade de vida e Bases Categoriais de cada um, que são as coordenadas existenciais da pessoa, por exemplo, onde e com quem vive, quais as coisas que se relaciona, e assim por diante, vejamos:

Na colheita das Categorias aristotélico-kantianas, que foram adaptadas à clínica, o Filósofo busca conhecer, por exemplo, onde nasceu a pessoa que o procura, qual a situação social, política e econômica da sociedade em que cresceu, o tipo de educação que recebeu, as experiências que vivenciou, os problemas que enfrentou, e assim por diante. Conhecer com riqueza de detalhes uma história de vida é a busca inicial numa Terapia filosófica. Explorando as cinco Categorias: Assunto (Imediato e Último), Lugar, Tempo, Relação e Circunstâncias, o Filósofo forma um conceito mais estruturado do mundo da outra pessoa, uma representação para si mesmo da representação do outro, conforme nos diz Packter. (PAULO; NIEDERAUER, 2013, p. 101-102).

Pois, cada um vive de uma forma tão exclusiva que é impossível fazer generalizações. Diferente da Medicina ou da Psicologia, na Filosofia Clínica nomenclaturas como patologia, síndromes, transtornos, não existem; haja vista que cada ser humano é único em relação a todos os demais, o que torna difícil enquadrar existencialmente em síndromes ou transtornos.

Porém, existem várias linhas terapêuticas distintas, e a Filosofia Clínica é apenas mais uma; outra maneira de lidar com tais “problemas”, sem as respectivas nomenclaturas convencionais, tentando ver na pessoa apenas a sua forma de ser, longe de quaisquer rótulos.

Entretanto, costuma ser comum na sociedade dos dias de hoje que as crianças sejam educadas, tanto nas famílias quanto nas escolas, para perceber a existência de cada um de acordo os padrões sociais de manuais que ditam as regras da “normalidade”. O que observamos é a existência de escolas nas quais costumam haver alunos enquadrados em Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade – TDAH, ou qualquer outro ‘transtorno ou síndrome’. Quem disse que ser “desatento” (conforme sintomas de guias da medicina) é um problema? Certamente será considerado um problema médico, mas talvez não seja considerado um problema para a Filosofia Clínica (conforme cada caso, mediante estudo da historicidade). Talvez o problema seja muito mais a dificuldade da escola ou dos pais, de lidar com um aluno ou filho, diferente dos demais. Pode haver casos em que isso seja um problema dos outros e não da criança – pelo menos a princípio.

Isso leva a pensar se não haveria problemas em nossas vidas que foram adquiridos socialmente? Se pudéssemos escolher lentes novas – diferentes das que usamos – para enxergar nossos “problemas”, quem sabe não perceberíamos muita coisa de outra maneira? Será que os problemas são o que de fato são por eles mesmos? Ou será que são, em parte ou no todo, o que nossa percepção faz deles?

Maurice Merleau-Ponty, em seu livro Fenomenologia da Percepção, no capítulo que trata do Corpo, discorre sobre o assunto da percepção de um membro do corpo que já foi amputado, este, que é conhecido como membro fantasma.  “O membro fantasma é a presença de uma parte da representação do corpo que não deveria ser dada, já que o membro correspondente não está ali”. (1999, p. 120).

Esse assunto é objeto de estudo das áreas da psicologia e da fisiologia, mas nos serve para fazer uma analogia com a temática deste artigo que é percepção do que se considera Problema. “O amputado sente sua perna, assim como posso sentir vivamente a existência de um amigo que, todavia não está diante de mim” (MERLEAU-PONTY, 1999, p.121).

Se, no campo sensorial há pessoas que sentem dores fortíssimas em membros do corpo que na verdade “não existem”, pois já foram amputados e, segundo Merleau-Ponty isso se deve a percepção que tais pessoas têm devido à representação que fazem do corpo. Então, pode ser que uma parcela de pessoas também faça percepções de problemas baseadas em representações que só existem para elas. Mas que no sentido da sociedade convencional, também poderiam ser considerados ‘problemas fantasmas’, tais como o caso dos membros amputados. Ainda assim será que podemos desconsiderar o problema? Por que é “apenas” para a pessoa que o sente?

Pode também, haver casos, nos quais o membro ou problema “fantasma” são vividos como uma realidade tão mais intensa por meio da percepção que a pessoa faz deles através de sua representação de mundo, do que se o membro ou problema não fossem fantasmas e fossem considerados “reais” pela sociedade comum, mas não houvesse se quer nenhuma percepção por parte da pessoa voltada a eles.

O conceito de representação de mundo também é utilizado na Filosofia Clínica. Parte de Schopenhauer, que afirma: “o mundo é a minha representação”. Segundo o filósofo,

Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. (…) Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas os olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem. (SCHOPENHAUER, 2001, p. 9, grifo nosso).

Se em Merleau-Ponty buscamos perceber os fenômenos por eles mesmos, da forma como se mostram, em Schopenhauer encontramos que a nossa relação com o fenômeno percebido irá interferir na percepção.

Podemos exemplificar da seguinte forma: quando uma pessoa está com um determinado problema pode surgir uma terrível dor no corpo, então toda vez que surge uma dificuldade a dor aparece. Na análise fenomenológica, a dor no corpo não é um comportamento, ela significa, e é pela somaticidade que a pessoa se exprime na totalidade do seu ser. Da mesma forma, a resposta que o corpo dá a certos estímulos externos supõe também que os próprios estímulos nunca são idênticos para todas as pessoas, mas influenciam na medida em que são percebidos de maneira singular pela consciência que os atinge. A fenomenologia contrapõe sinal e símbolo. Enquanto o sinal faz parte do mundo físico do ser, o símbolo é parte do mundo humano do sentido. (PAULO, 1999, p. 32, grifo nosso).

A questão do sentido que é dado ao problema é algo relevante, pois transforma o problema em objeto de estudo filosófico, se levarmos em conta que uma das ‘ocupações’ da Filosofia pode ser a busca de sentido das coisas.

De acordo com a filósofa clínica Nichele Paulo, (1999, p. 32), “para a fenomenologia nós não percebemos o mundo como um dado bruto, desprovido de significados; o mundo que percebo é um mundo para mim”. Assim como o mundo enquanto representação que Schopenhauer traz, que já tratamos anteriormente. E a autora, prossegue dizendo que “daí a importância dada ao sentido, à rede de significações que envolvem os objetos percebidos: a consciência vive imediatamente como doadora de sentido”.

O sentido que atribuímos aos problemas é a maneira como lemos a vida. Para Leonardo Boff, cada um lê com os olhos que possui e interpreta a partir de onde seus pés pisam (2000, p. 9):

Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.

Poderíamos então parafrasear Boff dizendo que a compreensão que cada um tem acerca de um problema íntimo será sempre uma interpretação sua? Um sentido que a pessoa atribuiu a algo de sua vida, nomeado de problema por ela própria?

Será possível que uma pessoa se aproxime de um problema qualquer em sua vida, e perceba este problema tal qual ele é, de fato? Ou será que a sua maneira de se aproximar deste fenômeno (problema), irá caracterizar sua percepção sobre o mesmo?

Nenhuma verdade é portanto mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe. Em uma palavra, é pura representação.  (SCHOPENHAUER, 2001, p. 9).

Vamos imaginar que a minha representação esteja relacionada à forma como percebo determinado problema, então, como fica a questão dos meus desejos sobre as circunstâncias da minha vida diante deste suposto problema em questão? Qual é o meu querer mediante certo problema? Existe alguma vontade em relação ao problema que percebo? Quais os caminhos que surgem no horizonte entre a minha representação do problema e a vontade almejada?

Além da Representação, Schopenhauer também tratou da Vontade, vejamos o que ele diz:

A vontade é a realidade primeira, o solo primitivo; o conhecimento vem simplesmente sobrepor-se aí, para depender dele, para ajudar a manifestar-se. Assim, todo homem deve à sua vontade ser o que é; o seu caráter existe nele primitivamente, visto que o querer é o próprio princípio do seu ser. (2001, p. 308).

Na Filosofia, existem várias definições de diferentes autores sobre a Vontade. Por exemplo, a Vontade de Viver que Segundo Schopenhauer citado por Abbagnano,

É o número do mundo, nada tem de racional: ‘é um ímpeto cego, irresistível, que já vemos aparecer na natureza inorgânica e vegetal, assim como também na parte vegetativa de nossa própria vida’ (2000, p. 1009).

E o autor continua afirmando que “‘o que a vontade sempre quer é a vida, justamente porque esta é apenas o manifestar-se da Vontade na representação, e é simples pleonasmo dizer Vontade de viver em vez de Vontade’”. (ABBAGNANO, 2000, p. 1009).

Em Schopenhauer, é a vontade que faz do homem ser o que é, então apenas com o intuito de ilustrar como isso nos coloca diante de uma questão paradoxal: os problemas são uma questão de escolha? Como fica a nossa vontade em relação aos problemas que vivenciamos? O querer é o princípio do ser?

São questões difíceis de responder, assim também sabemos que há problemas demasiado complicados, com os quais as pessoas convivem. Foi por isso que buscamos no aporte teórico de Schopenhauer e Merleau-Ponty ferramentas de reflexão sobre um tema tão comum a todos, que são os Problemas.

Embora tais teorias pareçam muito diferentes em si, ambas podem dialogar quando elegemos um problema específico para analisar. Para Merleau-Ponty (1999, p. 01), “A fenomenologia é o estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela, resumem-se em definir essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo”. Sendo assim, diante de um problema, um possível primeiro passo pontyano, seria definir a essência de tal problema.

O próprio Merleau-Ponty propõe que a Fenomenologia é uma forma de pensar as essências a partir da existência, ou seja, uma maneira de pensar as coisas e compreender o homem através de sua ‘facticidade’. “É a tentativa de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela é, e sem nenhuma deferência à sua gênese psicológica e às explicações causais”. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 1).

Por outro lado, definir as essências, também é, por si só, um problema, pois há o risco de que nossa percepção seja direcionada ou limitada conforme nossa representação de mundo (em Schopenhauer). Nesse caso, estaríamos diante de uma espécie de armadilha: para lidar com um problema, preciso primeiro definir a essência do mesmo, mas ao definir a essência dele, surge um novo problema conceitual, que é a limitação imponente da minha representação particular de mundo, que poderá interferir na percepção que tenho do problema em questão.

Semelhante a isso, há na Filosofia Clínica um tópico que trata das Armadilhas Conceituais, que são tramas de conceitos, vários elementos entrelaçados que tem uma grande característica: o aprisionamento da pessoa. Segundo, Lúcio Packter, (2013, p. 33):

Pontos cegos e armadilhas conceituais: uma das maneiras pelas quais seremos lembrados e estudados por outras épocas. Um dos motivos pelos quais é que se percebêssemos as contradições de nossa época não seria possível viver.

 Em outras palavras, a pessoa pode estar com um problema que se estruturou de tal maneira que, quanto mais ela tente se livrar dele, mais ele a prende. Por isso, uma das primordiais lições da Filosofia Clínica, que trata das singularidades humanas, nos diz que não há regras, receitas e manuais aplicáveis a todos os casos. Cada pessoa é diferente uma da outra, cada problema sempre será um problema específico, numa circunstância também específica, que exigirá atenção e cuidado especial.


A EXISTÊNCIA HUMANA: Os problemas segundo a Filosofia Clínica

 Gostaria de mencionar cuidadosamente que alguns problemas – respeitando as especificidades – não são resolvidos buscando compreender a essência deles, ou a natureza da relação que tenho com ele conforme minha representação de mundo; do contrário, há problemas que se resolvem, simplesmente quando deixamos de nos ocupar deles.

Claro, que existe uma série de advertências, nesse caso, porque há problemas que não podem ser “ignorados”, a exemplo de uma doença grave, como um câncer que exigirá cuidados médicos, sob pena de colocar em risco a vida da pessoa.

O que cabe em Filosofia Clínica, é conhecer e investigar a Estrutura de Pensamento (EP) da pessoa, as circunstâncias em que se encontra – e nesse processo, entram os Exames Categoriais atualizados.

Caso não haja grandes choques entre os tópicos estruturais da malha intelectiva e a EP não estiver direcionada para caminhos perigosos para a pessoa, (conforme irá se mostrar ao longo de toda sua historicidade de vida); após um estudo minucioso das especificidades de cada caso, será possível dizer – que neste caso, (e não será assim para todos) – a própria EP da pessoa se encarregará do problema em questão: A EP irá selecionar dentre as inúmeras possibilidades as que são mais condizentes e apropriadas.

Em padrões autogênicos menos mecânicos a pessoa começa a se soltar à EP. Diferente dos padrões mais mecânicos em que a EP ainda é utilizada como uma ferramenta via consulta tópica, nos patamares mais elevados a EP é consultada como um todo orgânico (PACKTER, 2013, p.38).

Confiar ou “soltar-se[5]” à própria EP é um exercício existencial contemplado nos estudos em Autogenias da Filosofia Clínica, mas que é motivo de vários equívocos, por isso, exige muitos cuidados e recomenda-se o acompanhamento de um Filósofo Clínico que irá avaliar a viabilidade disso ou não, conforme cada pessoa e seus respectivos problemas.

Quando uma pessoa procura atendimento com um Filósofo Clínico, ela costuma trazer um problema que a motivou ir até um consultório, tal problema é designado Assunto Imediato, este, que no decorrer dos atendimentos poderá ou não vir a ser o Assunto Último, que é aquilo que de fato será trabalhado na clínica do Partilhante[6].

Em muitos casos, o problema que o Partilhante traz, seu Assunto Imediato, não corresponde com o Assunto Último, ou seja, o problema existencial que está no cerne de sua vida, que não é apenas sintomático ou periférico. E há casos, nos quais certos tipos de problemas podem ser somente sintomas, manifestações que estão dentro de um problema maior, e este, podendo até passar despercebido para a pessoa.

Desvendar os mistérios dos problemas que flagelam a existência de cada um é uma tarefa complexa, pensar almejando uma solução imediata é algo ainda mais difícil, pois não temos o controle de muita coisa em nossas próprias vidas e nem sempre a responsabilidade será unicamente nossa. Por outro lado, isso não quer dizer que estejamos isentando certas responsabilidades, como por exemplo, a responsabilidade do terapeuta, que tem um compromisso ético com seus partilhantes.

É dever do filósofo clínico equalizar os dramas existenciais de seus partilhantes e, é responsabilidade dele também, ética e humanitária, de ser, sim, responsável pelo tratamento oferecido e, este, que deve ser de qualidade.

Como terapeutas, lidamos diretamente com dores existenciais de intensidades diversas que sinalizam uma situação, um indicativo que desfavorece o ser humano e o leva ao sentimento de ameaça imanente.
Entrar nesse universo exige habilidade, energia, sentimento de conexão, compromisso, capacidade de avaliação do sofrimento do outro. Somos um instrumento, a ferramenta capaz de cortar ou refazer laços. Uma tapeçaria do existir, com pontos alinhavados que podem suscitar surpresas, um salto quem sabe para a surpreendente novidade do desconhecido de um sujeito que se deixa perceber e provar novos sabores de uma existência (KRAUSE, 2007, p. 71).

Ainda segundo a mesma autora,

Há pessoas que passam por períodos de extrema fragilidade em seu existir e precisam tirar justamente ‘da casca e do bagaço’ um novo bálsamo para seguir adiante. Algum elixir qualquer que dê sentido a tudo.
Esses períodos de fragilidade são pontuais, fazem com que os pratos da balança da existência oscilem tão diferente do usual, que nos sentimos fora de compasso, sem ‘equilíbrio’ momentâneo (KRAUSE, 2007, p. 57).

É por isso que às vezes, quando se navega pelos mares agitados dos problemas, é difícil deixar a alma tranquila e confiar que os ventos irão se acalmar, encontrando caminhos que sejam bons para o nosso barquinho velejar. No turbilhão dos problemas, em uma tempestade, o barqueiro poderá tentar tudo o que estiver ao seu alcance, poderá sofrer, ou até mesmo desistir pelo esgotamento, mas ele não tem o controle do vento ou das águas do mar. Mas estes sim, o vento e as águas do mar é que podem (ou não) ter o controle sobre o seu barquinho.

Ainda somos fruto de uma época que nos deixou como legado uma visão antropocêntrica, de controle por vezes exagerado. Isso é algo histórico, desde os tempos em que se acreditou que a Terra fosse o centro do Universo, ou dos incansáveis duelos entre a Ciência para com Religião tentando provar a supremacia do Homem em relação aos outros seres vivos do planeta. Vivemos em uma sociedade que implicitamente nos responsabiliza diante dos problemas, muitas vezes dando coletivamente a impressão subjetiva de que cada um é responsável para resolver seus problemas: ‘Sim, os problemas devem ser resolvidos! ’ – Essa é a ideia socialmente veiculada através dos noticiários, das redes sociais, das propagandas e publicidades, da mídia, de modo geral.

Assim, portanto, existem pessoas influenciadas por essa cultura midiática e histórica do ser humano aos moldes da visão industrial, que são artefatos que se obrigam com liberdade ao aperfeiçoamento, cada vez mais, a exemplo dos equipamentos eletrônicos. Chega a existir pessoas tão mecânicas que quando identificam um problema, procuram solucioná-lo como se fosse um bug em um sistema operacional. Seres humanos são diferentes de máquinas, ainda que muitos façam tal confusão achando se tratar de uma mesma coisa. Uma pessoa com um problema existencial, não é como uma máquina com defeito. Para o filósofo Lúcio Packter, “a ideia de que para poder evoluir temos que descobrir quais são as falhas do sistema, ou seja, algo grotesco perante a existência humana. ” (PACKTER, 2013, p. 35).

Será que esta é uma maneira adequada para se lidar com problemas pessoais, existenciais? Até então, prevalece muito em nós de uma época bastante mecânica e as ferramentas de manejo dos problemas, às vezes, acabam sendo ainda tão rudimentares e escassas[7].

De modo geral, apenas para exemplificar, Razão e Emoção, que são somente dois Tópicos dos muitos que compõe a Filosofia Clínica brasileira de Packter, costumam ser os aspectos mais conhecidos de uma grande parte das pessoas para lidar com os problemas. Como exemplo, duas correntes de pensamento na história da humanidade, no que tange ao manejo dos problemas, que ficaram famosas: de um lado, as correntes que acreditam que a emoção está no cerne de tudo, do outro lado, os mais voltados à racionalidade.

Mas estas (razão e emoção) são apenas duas ferramentas bastante limitadas enquanto tópicos isolados, porém quando em conjunto com outros tópicos da Estrutura de Pensamento de uma pessoa, podem ampliar os horizontes e criar um manancial de possibilidades, que só via raciocínio, por exemplo, não seria possível.  Para Packter, (2013, p. 35),

Num patamar autogênico horizontal mais baixo a própria EP é subutilizada sendo ela mesma uma ferramenta. Um dos exemplos é o uso tópico feito das capacidades da EP, como uma pessoa com problemas que consulta o Raciocínio ou Comportamento e Função. De todos os recursos presentes em uma EP que levou anos para se formar a pessoa utiliza apenas um tópico. Essa subutilização deixa de existir em níveis autogênicos onde a EP funciona por si e a pessoa confia a si própria ao seu funcionamento.

Todavia, há um aspecto importante a ser tratado no que se refere à Filosofia Clínica em relação ao tema “Problema”: quando uma pessoa chega ao consultório de um filósofo clínico trazendo um problema, é provável que possa estar almejando por uma “solução” para o seu problema. Na Filosofia Clínica, a queixa imediata trazida pelo Partilhante, poderá não ser o Assunto Último a ser trabalhado. Como não há a ideia de patologia também não existe a ideia de cura. “A Filosofia Clínica não buscará a harmonia, o bem-estar, não procurará soluções hedonistas, não tentará a cura, principalmente porque em seus pressupostos inexiste a patologia”. (PACKTER, 2008, p. 121-122). Assim, em um primeiro momento, o problema que uma pessoa traz, pode ser apenas um sintoma de algo maior que pedirá uma investigação criteriosa, antes de qualquer coisa. Ao invés de buscar resolver o problema[8] da pessoa sem nada saber de sua história de vida, desconhecendo-a por completo no início, o filósofo clínico pesquisará os desdobramentos existenciais, conforme entrevista concedida a revista Filosofia Ciência & Vida, o filósofo clínico Lúcio Packter mencionou que as questões existenciais são as indicadas para o atendimento filosófico-clínico, embora, citou exemplo de “uma pessoa que se divorciou, que padece, está triste, não consegue levar a diante seus afazeres. Isso não a torna “doente”, mas talvez necessitada de auxílio”. (PACKTER, 2015, p. 29).

De acordo com Aiub, (2010, p. 17), podemos fazer uso das metodologias filosóficas para tratar nossas questões. “Os métodos filosóficos foram criados com o objetivo de abordar questões humanas, e suas origens encontram-se na própria existência”. Ou seja, mesmo que a filosofia não tenha como finalidade última e única a solução de problemas humanos, pode ser uma aliada na reflexão diante dos problemas, pode ser ainda, –  parafraseando Lou Marinoff[9] – o Prozac que alivia o flagelo de algumas, porém  não todas, almas humanas.

Quando estudamos filosofia, uma das primeiras coisas que aprendemos é que um problema não pode ser tratado fora de seu contexto; que uma abordagem a um problema que desconsidere sua história é uma abordagem superficial e, portanto, não filosófica. Por isso, a primeira contribuição da filosofia para o tratamento de questões como estas consiste em traçar a história do problema. (AIUB, 2010, p. 14).

A Filosofia não tem a pretensão de ‘resolver’ todos os problemas, também não é algo que servirá para todos, pois os problemas costumam ser singulares, indexados a contextos e situações diversas, por isso, há uma complexa subjetividade com a qual lidar: de um lado há um problema qualquer, do outro lado encontra-se um Universo infinito de possibilidades e a Filosofia é apenas um mero planeta visto de um telescópio que escolhemos ou não, segurar em nossas mãos.

Há quem diga que é preciso certa maturidade para a Filosofia, que as crianças ou jovens não possuem um raciocínio adequado ao filosofar, que o rigor e a seriedade da Filosofia exigem que se tenha vivido algumas experiências. Também há quem diga que, depois de certa idade, se está cansado demais para filosofar. Ou se possui toda a sabedoria necessária para conduzir a vida, ou não há mais para que querê-la, visto que não haverá tempo hábil para utilizá-la. (AIUB; HACK, 2012, p. 33).

Será que existem regras ou requisitos para o exercício de filosofar? Tem idade ou tempo certo para que uma pessoa opte ou não pela Filosofia em sua vida? De acordo com as filósofas clínicas Monica Aiub e Olga Hack (2012, p. 35),

O conhecimento e o exercício do filosofar são úteis a qualquer hora da vida. Não há hora exata para nos dedicarmos à Filosofia porque não há uma hora apropriada para pensarmos sobre nossa própria vida, para avaliarmos os caminhos escolhidos, as construções, as conquistas, as desventuras, as incertezas ou as dificuldades, para tomarmos uma decisão, assim como não há o momento certo, exato, para ser feliz.

CONSIDERAÇÕES FINAIS DE UM PRINCÍPIO…

Quando cada um pensa nos seus problemas pessoais, seja naqueles mais corriqueiros ou nos grandes dramas da vida, sabe da complexidade que existe para se lidar com eles. Assim também é complexa a tarefa de filosofar sobre o(s) Problema(s).

Por outro lado, desconheço a existência de um exímio tratado sobre os Problemas da vida humana. Cabe a cada um escrever o seu de acordo com a sua historiografia pessoal, dificilmente receitas prontas funcionam. É mais um processo artesanal, no qual cada um de nós pode criar a sua própria técnica. A vida é a caminhada que nos permite descobrir qual técnica irá funcionar conosco. Há quem busque descobrir sozinho, há quem procure um terapeuta, ou alguém para lhe auxiliar, ou até mesmo, quem apenas viva, sem pensar em quaisquer dessas questões. Sobre isso, Krause (2007, p. 56), nos diz:

O ser humano é complexo, apaixonante por isso mesmo, com suas vicissitudes, seus limites, seus sonhos, sua disposição de tentar uma melhora subjetiva. Neste universo terapêutico serão muitas as surpresas, muitas idas e vindas, correntezas de humanidade, belas, intrigantes.

A Filosofia Clínica, sistematizada por Lúcio Packter pode ser uma tentativa de aproximar as teorias do mundo dos filósofos até o dia a dia das pessoas de nossa época – que podem ou não estar passando por problemas. Idalina Krause, em seu livro, A arte de compartilhar, (2007, p. 16), traz que Lúcio Packter define a Filosofia Clínica como “o uso do conhecimento filosófico à psicoterapia; a atividade filosófica aplicada à terapia do indivíduo; as teorias filosóficas empregas às possibilidades do ser humano enquanto se realiza por si mesmo”. Sendo assim, quando se está passando por algum problema na vida, recorrer à terapia é uma das possibilidades, ou seja, a arte de compartilhar problemas existenciais. Onde não há garantias, mas possibilidade de análise da problemática em foco.

Além da terapia, há quem goste de sair com os amigos para compartilhar seus problemas, se divertir ou até mesmo esquecê-los; há quem decida fazer uma viagem para lidar com determinado problema que tenha surgido em sua vida; há, por exemplo, quem precise “extravasar” falando, cantando, gritando, lendo, dançando, correndo, nadando, caminhando, pintando, escrevendo, meditando, ou também ficando sozinho e em silêncio. Existem os que preferem o auxílio e a companhia de alguém quando de um problema, ou aqueles que escolhem seguir por si próprios. Há muitos tipos de pessoas e, consequentemente, formas de vivenciar os problemas, pode existir até aqueles que se enganam a respeito de si mesmos e dos seus respectivos problemas. E tudo isso é o que compõe a poesia do existir.

Por mais que se fale, ainda haverá muito para se falar sobre os problemas, haja vista que eles costumam fazer parte da vida da humanidade ao longo da história. Buscou-se apenas tratar sobre os problemas sob um viés da fenomenologia de Merleau-Ponty junto dos conceitos de representação de mundo em Schopenhauer, bem como da Filosofia Clínica de Lúcio Packter, que é uma filosofia utilizada nos consultórios que, muitas vezes, são movidos por algo chamado Problema.

Isso é a filosofia na prática posta a serviço de situações aflitivas, como sofrimento e dores da existência na tentativa humana de minimizar, eliminar, mudar enfoques, dissipar traumas, desfazer estigmas, construir caminhos através de princípios e conceitos filosóficos que seguem em direção à natureza de um sujeito único (KRAUSE, 2007, p. 69).

Ser um sujeito único nos dá o privilégio de assumir uma existência que é exclusivamente única, assim como cada um de nós. Viver com exclusividade permite reconhecer aquilo que só existe por nossa causa, as coisas que alimentamos e que nos habitam, os elementos que fazem ser aquele que somos. Até os problemas que vivenciamos são fragmentos que podem constituir aquilo que fomos, o que somos agora e o que poderemos vir a ser.

 

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[1] “Vizinhança existencial é tudo aquilo que aparece na historicidade da pessoa, aquilo que está em contato com a EP, como os pensamentos, as sensações, as emoções, o que estudamos, aquilo que acreditamos, todos estes elementos quando em contato com a EP são vizinhos existenciais” (PACKTER, 2013, p. 20).

[2] Retirada do Caderno de Matemática Simbólica I (PACKTER, 2013, p. 36).

[3] Em parte, também é possível associar com alguns aspectos presentes nas Autogenias Verticais, tratadas na Filosofia Clínica de Lúcio Packter. Mas não aprofundaremos esse assunto neste artigo.

[4] E.P.: “É o modo como a pessoa está neste planeta, no mundo, na sociedade, na família, no ambiente. Aquilo que a pessoa é. Todos os dados que a habitam e estão nela inter-relacionados: dados cognitivos, espirituais, abstratos, emocionais, comportamentais e existenciais. O Filósofo Clínico ao obter a EP da pessoa através dos exames categoriais, vai pesquisar o problema a ser tratado, como este está na EP da pessoa e como esta lida com o problema. (…) O que caracteriza uma EP é a sua plasticidade, sua singularidade. Cada EP traz seu próprio código genético. ” (PEDROSA, 2009b, p. 112-113).

[5] O termo soltar-se à própria E.P., foi utilizado pelo filósofo Lúcio Packter ao tratar das Autogenias em Matemática Simbólica, assim como Vizinhanças/ Vizinho, Sustentação, Freios, também são outros exemplos da linguagem e terminologias que passaram a fazer parte deste conteúdo. Exemplo de utilização do termo: “Ao se soltar à EP, a mesma seguirá o seu movimento inercial, dando seguimento ao que estava em processo” (PACKTER, 2013, p. 38).

[6] Termo usado para designar aquele que partilha sua vida com o Filósofo Clínico. Em Filosofia Clínica não costuma se utilizar nomenclaturas como paciente ou cliente.

[7] A excelência do tópico 10 – Raciocínio: uma das grandes características da autogenia de nossa época diz respeito ao tópico 10, usando argumentação derivada. É uma espécie de metafísica aristotélica com base na argumentação derivada. (Packter, 2013, p.33).

[8] Em Filosofia Clínica, trata-se do Assunto Imediato, ou seja, a queixa que o Partilhante traz ao consultório.

[9] Lou Marinoff é pioneiro do movimento prático filosófico na América do Norte e autor da obra Mais Platão, menos Prozac: a filosofia aplicada ao cotidiano.

 

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REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bosi. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

AIUB, Monica; HACK, Olga. Amizade, conhecimento e equilíbrio interior: A filosofia clínica nos jardins de Epicuro. Rio de Janeiro: Wak, 2012.

AIUB, Monica. Como ler a filosofia clínica: prática da autonomia do pensamento. São Paulo: Paulus, 2010.

ARISTÓTELES. Metafísica. Livro I. Col. Os Pensadores. Trad. Vincenzo Cocco. 1. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

AURÉLIO, Buarque de Holanda Ferreira. Novo dicionário eletrônico Aurélio. versão 2.0. (Mobile) 5.Ed. Editora Positivo Informática S.A., 2010.

BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. 34.ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

KRAUSE, Idalina. A arte de compartilhar: filosofia clínica. Porto Alegre: Evangraf, 2007.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

PACKTER, Lúcio. Filosofia Clínica: a filosofia no hospital e no consultório. São Paulo: All print, 2008.

______________. Matemática Simbólica: caderno I. Semanas de Estudos – Compilação e transcrição: Gilberto Sendtko. Vol.1. (Sem ed.) Porto Alegre: 2013.

______________. O Filósofo clínico pesquisa os desdobramentos existenciais. (Entrevista – Por Lucas Vasques). Revista Filosofia Ciência & Vida. Ano: VIII. nº 109. Editora Escala. Agosto/ 2015. p. 28-29.

PAULO, Margarida Nichele. Compêndio de filosofia clínica. Porto Alegre: Imprensa Livre, 2001.

_______________________. (Org.). Primeiros passos em filosofia clínica. Porto Alegre: Imprensa Livre, 1999.

PAULO, Margarida Nichele Di; NIEDERAUER, Mariza Zambom. Compêndio de Filosofia Clínica: Caso Nina – Revisado e Ampliado. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2013.

PEDROSA, Rose. Filosofia Clínica: como fazer um trabalho de conclusão de curso. Fortaleza: Penso, 2009a.

_______________. Vocabulário técnico da filosofia clínica. Fortaleza: Penso, 2009b.

MARINOFF, Lou. Mais Platão, menos Prozac: a filosofia aplicada ao cotidiano. Trad. Ana Luiza Borges. 17.ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.

NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de filosofia: das origens à idade moderna. Trad. Maria Margherita de Luca. São Paulo: Globo, 2005.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Trad. M. F. Sá Correia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001

 

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
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