Quando a Autogenia Põe Fim em um Relacionamento

 In Artigos, Artigos de Filósofos Clínicos, Filosofia Clínica

Hoje, depois de vários dias chuvosos, senti na pele o vento agradável da primavera desabrochando em mim as lembranças da energia do verão. No início da noite, as primeiras estrelas se anunciavam, decidi ir caminhar e vi uma cena interessante: Uma cena corriqueira, dessas que acontecem o tempo todo na rua e passam despercebidas, na maioria das vezes. Porém, quando se trata de Filosofia Clínica, qualquer episódio banal pode nos render algumas reflexões…

Na minha frente, caminhava um casal de mãos dadas, ambos adolescentes. De repente, me distraí observando outras coisas e quando voltei a vê-los o menino havia atravessado a rua e a menina não. Ele a esperava do outro lado, enquanto isso os carros passavam pela avenida.

Por que ele havia atravessado a rua sozinho? O que fez com que ele fosse e ela ficasse? Por que depois de estar do outro lado ele ainda esperava por ela? O que impediu que atravessassem juntos? Será que ela ainda queria atravessar depois de ter ficado sozinha à margem? Enquanto o trânsito não dava trégua, como era a espera pelo encontro para cada um deles? E se ela atravessasse e fosse ao encontro dele, já no outro lado, como eles prosseguiriam a partir daí?

Essas mesmas questões também podem ser feitas quanto tratamos de relacionamentos e seus respectivos rompimentos, separações. Na Filosofia Clínica, há uma parte dos relacionamentos que são estudados no campo das Interseções. Digo uma parte porque há inúmeros elementos envolvidos naquilo que chamamos de Interseção[1] entre Estruturas de Pensamento (E.P.s)[2], em outras palavras, tudo aquilo que está envolvido e que faz existir uma relação entre duas pessoas; como exemplo, um namoro ou um casamento – algo que informalmente sabemos do que se trata.

Resumidamente, vamos tratar dos relacionamentos sob um ponto de vista mais autogênico, ou seja, considerando que já existe um entendimento prévio do conjunto de todos os dados (sensoriais, abstratos, espirituais, emocionais, etc.) que constituem a Estrutura de Pensamento (E.P.) da pessoa.

Após um entendimento estrutural e funcional aprofundados dos Tópicos da E.P. e dos Exames Categoriais da pessoa, os exames de autogenia mostram o que ocorre como um todo com a pessoa e em seus diversos relacionamentos.

Feita essa breve introdução, vamos tratar não do início, mas dos finais. Embora possam existir interseções que acabem, mas nunca têm um fim – por mais paradoxal que possa parecer – as separações, rompimentos, divórcios, podem ser considerados exemplos fins de relacionamentos na visão “social”.

Por outro lado, na Filosofia Clínica, poderá ser diferente: um divórcio, por exemplo, não necessariamente poderá significar o fim do relacionamento, porque há casos nos quais a Interseção se torne ainda mais forte após uma separação.

Assim sendo, quem já passou, está passando, ou simplesmente estuda casos sobre o fim dos relacionamentos na condição de estudante ou pesquisador da Filosofia Clínica, talvez possa se fazer perguntas como “Por que ele (a) se foi e eu fiquei? ”  Ou “por que eu fui e ele (a) teve que ficar? ” Quem sabe, alguns façam ainda mais perguntas, parecidas com as que fiz quando vi o casal de adolescentes se “separando” ao atravessar a rua. E não existe uma resposta única para elas, cada caso sempre será um caso diferente.

Porém, às vezes, as mudanças tópicas que vão acontecendo na malha intelectiva das pessoas, podem causar modificações estruturais que, com isso, podem ir transformando as Interseções que existiam a tal ponto capaz de resultar no rompimento da relação. Isso ocorre devido à plasticidade das E.P.s.

Quando os tópicos de uma E.P. se reorganizam e com isso acontece uma mudança na Autogenia da pessoa, é provável que ocorram algumas mudanças adjacentes disso. Às vezes, em uma interseção entre dois, um caminhou mais que o outro no sentido existencial, depurou alguns tópicos, teve certa elevação autogênica[3] que implica em uma mudança das atuais Vizinhanças[4]. Possível tradução: é a pessoa que atravessou a rua, cuja outra ficou abandonada à margem, impedida de acompanhar o outro por causa dos elementos que transitavam diante de si.

Geralmente, quando ocorre uma separação por incompatibilidade autogênica, o fim do relacionamento irá representar algo diferente para cada um dos envolvidos. É provável que a própria maneira de encarar o fato, irá mostrar, ainda que muito superficialmente, onde cada um está em relação às densidades autogênicas.

Em alguns casos, não será mais possível caminhar juntos, já em outros, aquele que foi antes conseguirá esperar até que o outro o alcance e seguirão juntos. Além das diferenças nos relacionamentos onde a Autogenia de um aponta para o alto e a do outro aponta para baixo, também há casos em que os caminhos são horizontais, embora andem em direções contrárias.

Mesmo para quem não conhece com profundidade o campo da Matemática Simbólica em Filosofia Clínica que trata das Autogenias, é válido saber elas existem, e que podem nos trazer uma explicação diferente, nova, sobre o “fim” de determinada interseção.

Entre os estudiosos de Filosofia Clínica, costuma ser comum, em um primeiro impulso que a maioria dos estudantes mostre o desejo de “elevar” a Autogenia logo que tomam contato com este conteúdo – assim conta-nos nosso professor, o filósofo Lúcio Packter. Porém, nas aulas que ele ministrava, costumava advertir aos alunos que a mudança de patamar autogênico implicaria em deixar para trás as atuais Vizinhanças. E então, quem estaria disposto?

Não quer dizer que em todo caso no qual há uma mudança na densidade autogênica[5] em uma das pessoas envolvidas num relacionamento, resultará em uma separação. Por favor, não façamos este equívoco. Quer dizer apenas, que essa é uma das muitas possibilidades. Este texto trata de um exemplo isolado, em algum relacionamento específico poderá ocorrer uma separação devido à uma incompatibilidade autogênica.

Isso não é nem bom, nem ruim, não há como julgar. É apenas a vida humana se manifestando, se mostrando pelas muitas faces da existência.

 

 

REFERÊNCIAS

 PACKTER, Lúcio. Matemática Simbólica: caderno I. Semanas de Estudos – Compilação e transcrição: Gilberto Sendtko. ANFIC. Vol.1. (Sem ed.) Porto Alegre: 2013.

PAULO, Margarida Nichele Di; NIEDERAUER, Mariza Zambom. Compêndio de Filosofia Clínica: Caso Nina – Revisado e Ampliado. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2013.

PEDROSA, Rose. Vocabulário técnico da filosofia clínica. Fortaleza: Penso, 2009.

 

[1] Interseção em Filosofia Clínica faz referência ao Tópico 28 – Interseções de Estruturas de Pensamento: “Este tópico diz respeito aos vínculos dispostos em uma EP em relação à outra EP. Compreende um estudo aprofundado entre a Estrutura de Pensamento da pessoa e as Estruturas com quem estabelece relação, direta ou indiretamente. Em muitas situações, podemos observar que a Interseção com outras Estruturas pode alterar, anular, salientar, diminuir, comprimir ou até mesmo desestruturar completamente tópicos da estrutura da pessoa” (PAULO; NIEDERAUER, 2013, p. 174).

[2] Estrutura de Pensamento (E.P.) “É o modo como a pessoa está neste planeta, no mundo, na sociedade, na família, no ambiente. Aquilo que a pessoa é. Todos os dados que a habitam e estão nela inter-relacionados: dados cognitivos, espirituais, abstratos, emocionais, comportamentais e existenciais. O Filósofo Clínico ao obter a EP da pessoa através dos exames categoriais, vai pesquisar o problema a ser tratado, como este está na EP da pessoa e como esta lida com o problema. (…) O que caracteriza uma EP é a sua plasticidade, sua singularidade. Cada EP traz seu próprio código genético. ” (PEDROSA, 2009, p. 112-113).

[3]Elevação autogênica diz respeito a tornar a Estrutura de Pensamento como um todo menos mecânica, mais conceitual, e isso se dá através da lapidação dos tópicos, através de uma caminhada existencial, como visto anteriormente. Ter grandes conhecimentos sobre um assunto, ser muito bom em algo como pintura ou matemática, não torna uma Estrutura do Pensamento mais etérea, pois normalmente essas questões dizem respeito a apenas um ou dois tópicos e não da EP como um todo. Assim também existem pessoas com pouquíssimo conhecimento epistemológico, pessoas até mesmo analfabetas, mas cujas EPs encontram-se em níveis autogênicos um pouco mais elevados do que a grande maioria das pessoas da nossa época (PACKTER, 2013, p. 73).

[4]Vizinhança existencial é tudo aquilo que aparece na historicidade da pessoa, aquilo que está em contato com a EP, como os pensamentos, as sensações, as emoções, o que estudamos, aquilo que acreditamos, todos estes elementos quando em contato com a EP são vizinhos existenciais” (PACKTER, 2013, p. 20).

[5] Densidade autogênica é um termo utilizado em Matemática Simbólica para caracterizar o patamar em que a E.P. se encontra, que pode ser desde o mais denso, mecânico, até o mais etéreo, fluído.  “À medida que o indivíduo progride existencialmente, depura tópicos, ajusta questões, cessa conflitos internos, sua Estrutura de Pensamento como um todo tende a uma elevação autogênica, tornando-se menos mecânica, mais etérea” (PACKTER, 2013, p. 28).

N.A.: É importante frisar que esta não é uma definição pontual do termo, pois trata-se de um assunto complexo cuja amplitude necessita estudos detalhados para a compreensão. Essas notas de rodapé têm somente o caráter de traduzir resumidamente os termos utilizados no texto aos que não estão familiarizados com o vocabulário da parte da Filosofia Clínica que trata da Matemática Simbólica, mas não podem ser tomadas como uma explicação total acerca do assunto, pois o mesmo exige de aprofundamentos.

 

Dica de estudo para os Estudantes de Filosofia Clínica:

Quem deseja conhecer melhor o tema das Autogenias, existe um curso online do Instituto Packter tratando sobre o tema. Acesse: http://www.filosofiaclinicaonline.com.br/extensao/curso/11

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