Quando o peso das heranças atávicas é um impeditivo à transcendência?

 Em Filmes para Leitura Clínica (Indicações), Filosofia, Filosofia Clínica

A Semana de Estudos em Filosofia Clínica é um evento nacional que ocorre anualmente e é dedicado ao que há de novo na Filosofia Clínica. São estudos avançados que pressupõem o conhecimento prévio da primeira parte da Filosofia Clínica, que compreende as Bases Categoriais, Estrutura de Pensamento (Tópicos e Submodos) e Autogenias (Horizontais, Verticais e Transversais).

Neste inverno de 2017, durante uma semana de sol macio e temperaturas não tão baixas, o tema trabalhado pelo filósofo, o professor Lúcio Packter – o sistematizador da Filosofia Clínica, foi o Estruturalismo e as Construções Sistêmicas de Mundos.

Não há como resumir os conteúdos em torno das Construções de Mundos sem acarretar perdas significativas, por se tratar de um tema tão amplo e complexo, optarei por uma pequena parte para tratar neste artigo, o que, em termos de proporção em relação à totalidade do conteúdo apresentado, representaria – usando de um “Vice-conceito” – um pequeno ponto na trama de uma grande tapeçaria.

Começando do começo, vamos tratar então das nossas Bases Categoriais. E, sim, – Não estou sendo redundante – pois há começos que podem iniciar pelos finais… Então, os convido a pensar nos começos: façamos um exercício de “Retroação” e vamos voltando no tempo, primeiro na nossa Historicidade, como ela começou? Pense nela nos dias de hoje e vá voltando, relembrando até o seu nascimento, consegue? E antes dele, o que havia? Pense na historicidade dos seus pais e vá retroagindo até o nascimento deles? O que ocorria naquela época? E antes disso? Caso saiba um pouco da historicidade de seus avós, como era? E anterior a isso, o que havia nessa época histórica? Continue retroagindo, até onde seus conhecimentos históricos permitirem, pense nas circunstâncias dos seus antepassados, como eles viviam? Quais eram as crenças deles? Como eles se relacionavam? Como será que eles se sentiam em relação ao lugar que habitavam? A que velocidade giravam os ponteiros do relógio daquela época? Como era meio social ou cultural daquele tempo histórico?

Tente responder estas mesmas questões para as várias gerações históricas, até onde seu conhecimento lhe permitir alcançar. Depois, veja quais elementos de épocas mais lhe chamam a atenção? O que já existiu, mas foi morrendo pelo caminho e hoje não existe mais em nossos dias? O que foi surgindo, os acontecimentos históricos que foram influenciando e modificando gerações e outras coisas mais que você for percebendo. Disso tudo, após toda essa reflexão, quais elementos históricos dessa herança cultural você carrega?

Seja por hereditariedade, ou por heranças atávicas, o que você trouxe, para – e em – si, da sua “Base Categorial”? E o que da sua base categorial existe porque existiu toda uma História da humanidade, anterior a ela? …E outra anterior a ela, e outra antes dela, e ainda mais outra, e outra, e… até retornarmos ao início dos tempos…

E de quando tudo começou até hoje, tal qual está o mundo construído, será que podemos acreditar que somos o grande autor da nossa história de vida – única e exclusivamente? É provável que muitos se surpreenderão e, perceberão em si mesmos uma infinidade de coisas que talvez tenham começado bem antes do “seu começo”.

Um dos exemplos trabalhados pelo professor Lúcio Packter, no evento supramencionado, foi a questão do nosso Raciocínio (Tópico 10 da Estrutura de Pensamento). O quanto da nossa forma de pensar, do modo como estruturamos nosso Raciocínio ainda é renascentista em uma grande maioria pessoas dos dias de hoje, e, para alguns, é inclusive anterior a isso, chegando a ter um Raciocínio típico do homem medieval. Ao trabalharmos durante o evento, elementos biográficos da vida de Galileu, foi possível perceber semelhanças entre aquele modelo de Raciocínio (daquela época) e o nosso (da nossa época atual). Com isso, o professor Lúcio, mostrou-nos como não foi possível para Galileu transcender as Bases Categoriais da época dele (galileana), pois dentre outras coisas, Galileu “batia no teto da racionalidade”…

O que me levou a pensar sobre o quanto disso ainda ocorre atualmente conosco? Essa mesma questão da racionalidade, já trabalhada em outras ocasiões pelo professor Lúcio, da racionalidade como um “freio” para alguns (levando em conta, tudo o que já se estudou sobre a especificidade de cada Estrutura de Pensamento (EP), é claro!). Embora aqui não estejamos falando de EPs específicas, mas num contexto geral das nossas Bases Categoriais de época. Ou seja, como ele costumava nos dizer em aulas, que o Raciocínio, que, noutra época, já foi um acelerador, hoje se constitui em um dos nossos freios.

Freios estes, que talvez se constituam em um dos maiores impedimentos de transcendência das Bases Categoriais. Haja vista que a questão de como transcender as Bases Categoriais foi um dos elementos de grande pertinência para a Construção de Mundos via Estruturalismo, tema da referida Semana de Estudos 2017.

Caso você tenha ficado pensando sobre como é então que se transcende as Bases Categoriais, lamento, mas não serei capaz de saciar sua curiosidade neste breve artigo. Mas, como sou adepta ao uso de Vice-Conceitos (metáforas) e grande entusiasta de “contações de histórias” (que alguns ainda preferem chamar de “Estórias”), vou lhes contar uma que ouvi certa vez, em algum lugar, e até desconheço a autoria.

Alguém que eu não me lembro quem, contou-me que certa vez, fora convidada para um almoço de domingo na casa de uma família de amigos. Chegando lá, um pouco antes do meio-dia, (porque assim manda a tradição em relação ao horário: nem muito cedo, para não ser café da manhã, nem muito tarde para não ficar “feio”. Sei lá, quem foi que inventou essa “regra social” de que uma refeição, convencionalmente chamada de ‘almoço’ precisa ser com horário marcado, e este, necessariamente, deve ser entorno do meio-dia. Seriam heranças atávicas?…) de modo que, foi possível sentar-se na cozinha e acompanhar o preparo dos alimentos, enquanto conversava com a anfitriã:

– Porque você cortou metade de cada pedaço de salmão e jogou no lixo, colocando para assar só a metade do que estava preparado? – Perguntou a convidada.

– Ora, eu não sei. Minha mãe me ensinou a preparar peixe assim. – Respondeu a dona da casa, sem dar muita importância.

– Nossa, mas jogar metade no lixo, com o preço que está custando o salmão, deve estar sobrando muito dinheiro por aqui então! – Brincou a convidada, para disfarçar seu estranhamento diante do hábito da amiga. Pensou ainda, na quantidade de pessoas passando fome no mundo, diante de tal desperdício e se comoveu; decidiu questionar mais uma vez, insistindo no assunto:

– E você sabe porque sua mãe lhe ensinou a preparar peixe assim, jogando a metade fora? – Questionou.

– Sabe que eu nunca havia pensando nisso. Nunca me ocorreu. Agora é que me dei conta, realmente, em tempos de crise como os de hoje, eu jogando salmão cru no lixo. Porque eu nunca pensei em fazer sushi, com a parte que sobra, né? – Riu a anfitriã.

– Já que eu não posso colocar pra assar junto, vou fazer sushi da próxima vez. – Continuou ela, sorrindo orgulhosa de si mesma.

– Como assim não pode colocar tudo pra assar? – Perguntou a convidada.

– Porque a minha mãe me ensinou que não podia. Ela me ensinou que a gente só deve assar a metade do peixe, o resto temos que jogar fora. E eu sempre fui uma filha obediente, sabe… – Falou a dona da casa, dando uma piscadela enquanto regulava o forno.

– Sabe que a minha mãe já deve estar chegando, ela também virá para o almoço. Perguntarei a ela sobre isso. Agora você me deixou curiosa. – Disse a anfitriã para a sua amiga.

Depois do almoço, todos saciados e felizes, a convidada se ofereceu para ajudar na cozinha, não sei se é realmente questão de “afinidade com as tarefas domésticas” ou mais uma herança atávica de gênero, mas estavam as mulheres novamente na cozinha, dessa vez, a convidada, a anfitriã e sua mãe, que todos chamavam de vó – por causa dos netos.

Questionada, pela filha sobre o modo de preparo do peixe, no qual deve-se jogar metade fora, antes de assar, a vó disse que também não sabia o motivo, que havia feito desse jeito a vida inteira, nunca fez diferente, porque também a sua mãe havia lhe ensinado assim.

Mas como esse não é um daqueles enredos de filme que terminam e você fica com a impressão de que não acabou, e até meio chateado por parecer que “cortaram” o final do filme. Eis que a mãe da vó, a “bisa” como é chamada, está viva e muito bem viva, usa até ‘Whatsapp’. Então, na mesma hora, perguntaram a ela sobre a história de jogar metade fora de qualquer tipo de peixe. E vejam o que ela respondeu:

– Bem é que no meu tempo, era tudo muito difícil, as coisas não eram como são hoje. Eu só tinha uma forma assadeira e ela era muito pequena, mas como o pai de vocês era pescador, sempre tinha muita fartura de peixe sobrando, que ia pro lixo. Então eu acabava cortando os peixes grandes para que coubessem na forminha de assar. Hoje em dia, tem tudo o que é tamanho de assadeira pra comprar e as cozinhas de todo mundo costumam ter de vários tipos. Por outro lado, os peixes que se costuma comprar já vem em pedaços cortados nas bandejinhas no mercado, são tão pequenos que fica fácil pra assar… Quem é que faria hoje em dia o que eu fazia naquela época na hora de assar peixe, né? Que absurdo! – Riu a bisavó.

Agora sim, fim da história! A reação das mulheres naquela cozinha fica por conta da imaginação de cada um.

Se você não sabia o que eram as heranças atávicas, as influências da Base Categorial, acho que agora com esta história ficou mais fácil. Agora você já pode procurar pelas suas, bem como modos de transcender – se for producente. Eu, estou procurando pelas minhas.

Um abraço[1],

Tainara

 

[1] Porque eu acho que no tempo em que se enviavam cartas, eles sempre se despediam ao final… eu até que gosto disso, mas nos Apps de mensagens instantâneas, se despedir está caindo em desuso, pois as conversas continuam, seguindo apenas critérios como o de visualização, ou o de mudança de assunto, em alguns casos. Desculpe, pelo exemplo da história, não quis causar a impressão de que tudo é ruim. Procure pelo que você considera bom também e, se for o caso, se aproxime disso que lhe apraz.

 


Dica de Estudo:

Para quem quiser aprofundar os estudos, recomendamos o Filme “The Village” (A Vila), de 2004, direção e roteiro por M. Night Shyamalan.

– Identifique quais as Bases Categoriais apresentadas na Vila?

– Houve possibilidade de transcendência para tais Bases Categoriais? De que forma seria?

 

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
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