Vícios como Paixão Dominante

 Em Ensaios, Filosofia Clínica

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O que é estar apaixonado? Como é fazer algo apaixonante? O que é paixão? Quando ouvimos a palavra Paixão, em um primeiro momento, pode até soar como algo relacionado aos sentimentos, mas, se procurarmos a definição da palavra no dicionário, poderemos até ficar um pouco confusos, pois há várias definições.

Então, dentro de um mundo inteiro que cabe nesta palavra, vamos nos ater a uma parte dela: o significado que ela tem em um Tópico da Filosofia Clínica, chamado Paixões Dominantes.

O tópico 12 – Paixões Dominantes[*], “diz respeito a frequência com que uma ideia, um conceito, um verbo mental, age, atua, habita, na malha intelectiva da pessoa. Não é a intensidade, mas a frequência que caracteriza a paixão dominante. ”

Há vários exemplos sobre isso, alguns podem ter o próprio Raciocínio como uma Paixão Dominante, outros podem ficar doentes de tanto em tanto tempo, remédios e vícios em geral, etc.

Como um mero exercício, pensemos um pouco na nossa historicidade, é possível identificar as coisas que são frequentes? O que tem sido mais frequente nos últimos anos, nos últimos meses, nas últimas semanas, nos últimos dias?…

Reflexões feitas, vamos a um último lembrete sobre o 12º Tópico – Paixões Dominantes: Quando se usa como exemplo para explicar este tópico somatizações ou vícios, as pessoas podem associar a algo que pode não ser considerado “bom” à Estrutura de Pensamento (E.P.) da pessoa, mas são apenas exemplos didáticos de fácil entendimento para a maioria. Quem disse que determinado vício ou somatização SEMPRE serão considerados “ruins” à E.P.? Dependerá de cada caso, de cada Historicidade.

Essa ideia do que é “bom” ou “ruim” para TODOS costuma ser bastante perigosa, o ‘AS VEZES’ e o ‘ALGUNS’ são uma indicação mais branda.

Mas como cada caso, será sempre um caso específico, haverá casos nos quais às Paixões Dominantes serão indicadas; pode-se criar uma Paixão Dominante para uma pessoa, por exemplo como um “Vizinho”[1] útil à “Sustentação autogênica[2]” da pessoa. Exemplo: Ir caminhar todo fim de tarde. Entretanto, este é apenas mais outro exemplo, às Paixões Dominantes devem ser estudadas conforme a Historicidade e E.P. de cada pessoa em particular. Também pode haver casos de pessoas para as quais este Tópico não tem peso subjetivo em relação aos demais.

Introduzido o tema e definido o tópico em questão, agora vamos falar um pouco sobre os vícios.

Quando nos utilizamos da Filosofia Clínica, um vício pode estar associado a quaisquer tópicos, não necessariamente, às ‘Paixões Dominantes’ (caráter de repetição). Pode, por exemplo, se relacionar às Emoções, quando existe um desejo de felicidade, ou fuga da tristeza ou outros sentimentos, fazendo com que a pessoa busque tais emoções por meio do vício em drogas. Para qualquer tipo de vício, haverá Tópicos diferentes associados, (ou até mesmo Submodos, pois o próprio vício pode ser um modo de ação da pessoa) conforme a historicidade e E.P. de cada um.

Ouve-se por aí gente dizendo que é “viciada” em café ou chocolate e, a princípio não sabemos se aquilo que é nomeado por “vício” de fato o é. Nem sempre há a famosa ‘dependência química’ do organismo, às vezes, poderá ser somente um hábito, uma rotina que se repete com frequência, ou seja, uma Paixão Dominante que leva o apelido de vício.

Um exemplo hipotético de Paixão Dominante, pode ser o de alguém que se acostumou em sair do trabalho, chegar em casa e ver TV comendo chocolate, todo santo dia! Quando não faz isso, parece que algo lhe incomoda, então algum familiar desta pessoa, lhe diz que ‘isso é coisa de “chocólatra” que não consegue passar se quer um dia sem comer chocolate, que dizem que chocolate vicia, etc., etc.’ Na verdade, nem se trata disso, mas de alguém que gosta de seguir certa rotina todos os dias, e incluiu o fato de comer chocolate nessa repetição diária. Não há nada de errado, em gostar de rotina, da vida sempre igual em repetição, de manter hábitos frequentes. Claro, que se essa pessoa vai ao médico e descobre que está com Diabetes, ou obeso, ou qualquer outro problema de saúde atribuído pelo médico aos hábitos alimentares, talvez devido à quantidade de açúcar que está ingerindo por causa da rotina de comer chocolate, isso precisará ser modificado, a pessoa passará a seguir uma nova dieta e terá restrições médicas que a impedirão de comer chocolate na frequência em que estava acostumada.

Talvez tenha que ser feito algum ajuste na vida da pessoa em relação a esse Tópico das Paixões Dominantes, por exemplo, ao incômodo que lhe causou não poder seguir mais a rotina que já repetia há tanto tempo: de chegar em casa do trabalho e assistir TV comendo chocolates.

O que essa pessoa imaginária do nosso exemplo não sabe, é que o problema dela está relacionado somente ao hábito de comer chocolate e a frequência com que o fazia. Ela acredita que foi o fato de ter parado de comer chocolate por causa da restrição médica que a deixou mal, que o “vício interrompido” lhe causou desconforto quando chega do trabalho e vai assistir TV todos os dias. Na verdade, é provável que o problema desta pessoa foi a “quebra” da Paixão Dominante, ela teve que deixar de fazer algo que repetia todos os dias e que tal repetição tinha peso significativo em sua E.P.

É só com o estudo da Historicidade que aparecerão os Tópicos e Submodos que têm peso significativo para cada pessoa. Alguns podem não ter peso significativo nesse Tópico das Paixões Dominantes, ou até mesmo inexistir.

Pode haver Paixões Dominantes que quando se quebram na vida das pessoas são causa de sofrimento, como no singelo exemplo da nossa pessoa supostamente viciada em chocolate. Por outro lado, há Paixões Dominantes que podem ser nocivas à E.P., coisas que se repetem com frequência que podem tracionar a E.P. ou gerar choques com outros Tópicos e, nesse caso a quebra ou substituição de determinada Paixão Dominante poderia ser uma indicação filosófico clínica.

Por meio do criterioso estudo da Estrutura de Pensamento e Exames Categoriais, poderá se analisar o caso de acordo com a Historicidade de cada pessoa, se é possível ou recomendável a quebra ou não de uma Paixão Dominante, ou a manutenção, ou mesmo uma construção de uma Paixão Dominante. Tudo necessita ser realizado com muitos cuidados, com os fundamentos e métodos da Filosofia Clínica, pois quebrar ou reconstruir Paixões Dominantes sem os devidos cuidados pode ser perigoso à existência da pessoa.

Há inclusive, Paixões Dominantes que podem ser o fundamento primordial de uma Estrutura de Pensamento, e que ao quebrar tal frequência na vida, toda a existência pode se esvair com tal quebra. Portanto, sejamos cuidadosos com as questões acerca da existência humana, com aquilo que fundamenta e faz ser aquilo que somos.

[1] Termo usado em Matemática Simbólica.

[2] Termo usado em Matemática Simbólica.

[*] Texto baseado em aula ministrada pelo Prof. Lúcio Packter.

Se deseja saber mais sobre o assunto, acesse:

http://www.centrofic.org/uma-introducao-as-paixoes-dominantes/

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
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