Você costuma fazer perguntas?

 Em Artigos, Filosofia, Filosofia Clínica

Há quem diga por aí que a Filosofia é uma velha arte de fazer perguntas. Talvez alguns também já tenham ouvido falar que a Filosofia se ocupa muito mais das perguntas do que com as respostas. Seria filosófico restringir a Filosofia somente ao exercício de questionar?

Para cada filósofo, quem sabe, encontraremos uma resposta; ou ainda, uma pergunta – ou questão. Poderão elas coincidir – ou não. Mas hoje, aproximaremos esse aspecto questionador da Filosofia à nossa vida diária e falaremos sobre as perguntas que circundam nossa rotina.

Você sabe perguntar a si e aos outros algo que deseja saber? Como uma pergunta deve ser feita? Quem disse que quem pergunta tem direito a uma resposta[1]?

Segundo o senso comum, talvez haja apenas umas pequenas “regrinhas” de etiqueta de boas maneiras, tais como: ‘não se deve perguntar a idade de uma mulher, ou quanto ela pesa…’, ‘não é educado perguntar quanto uma pessoa ganha em termos financeiros’… etc.

Mas diferente do senso comum, a Filosofia vai além da etiqueta e nos traz a Ética. Refletir sobre se é ético ou não questionar certas coisas a uma pessoa, pode se tornar uma questão bastante profunda. Como saber quais são os valores que a pessoa preza, suas crenças, seus sonhos, suas feridas? E como saber se uma pergunta nossa, que façamos a ela, não irá tocar em certas coisas nessa pessoa que lhe são tão caras e extremamente delicadas? Uma pergunta aparentemente inofensiva, como as de quem tenta puxar qualquer assunto com alguém “desconhecido”, pode vir a ser como uma vara cutucando um vespeiro. Não temos como saber aprioristicamente.

É por isso, que na Filosofia Clínica se trabalha com os Agendamentos Mínimos, que são os cuidados para não agendar coisas na pessoa, principalmente no início dos trabalhos, assim evita-se fazer perguntas sem ter um objetivo clínico, ou não fundamentadas pelo próprio método de trabalho, pois nada se sabe da pessoa desconhecida que nos chega. Trata-se de um respeito ético para com a pessoa, a fim de não causar-lhe algum mal em razão de alguma pergunta desavisada que possa ser nociva ao Outro – sem que saibamos.

Há quem tente ser simpático e estabelecer interseção com gente nova, mas nem todo mundo gosta de uma avalanche de questões oriundas de nossa vã curiosidade. Perguntando coisas a quem conhecemos superficialmente, corre-se sempre o risco de cair em áreas indesejadas, ou em questões delicadas da vida dessa pessoa que não sabemos.

Já vi coisas complexas de um ponto de vista ético, acontecerem com pessoas que estavam no mesmo ambiente do que eu. Algumas delas tão antigas, ainda dos tempos de escola, que me lembro ainda hoje, pois valem de exemplo: uma colega da turma – querendo ser simpática com uma nova professora substituta – e perguntando a ela de quantos meses estava a gestação, quando na verdade, a professora constrangida respondeu à aluna que não estava grávida, mas só acima do peso.

Questões assim raramente são engraçadas, são, talvez, muito mais lamentáveis, quando um ser humano usa perguntas para com outro (mesmo que ingenuamente) mas que podem ser capazes de ferir. Não sabemos. E, se não sabemos, o silêncio pode ser muito mais respeitoso para com o Outro. Em alguns casos o silêncio poderá representar uma atitude muito mais sábia, do que um questionar por questionar aleatório que poderá evidenciar a ignorância de quem pergunta. Não é só nas perguntas que a sabedoria poderá se mostrar, às vezes, é justamente no calar uma pergunta e na decisão de não fazê-la que mostramos nossa sabedoria e o respeito ao Outro. A decisão de perguntar ou não, é uma decisão Ética, portanto, filosófica; nesse sentido, quando somos questionados também temos a decisão de responder ou não à pergunta que nos fazem – é uma decisão filosófica que estará de acordo com nossos próprios pressupostos.

Agora vamos a um exercício prático visando refletir sobre os direcionamentos que uma pergunta é capaz de fazer na resposta. Conforme a maneira que a pergunta é elaborada, a reposta poderá ser influenciada em igual sentido.

Por exemplo, alguém pode se questionar “por que eu sou tão infeliz? ”, ou “como faço para ser mais feliz? ”. É provável que a Estrutura de Pensamento (EP) da pessoa irá rastrear por locais distintos respostas diferentes conforme cada pergunta.

Sendo assim, é válido buscarmos uma maneira mais adequada na hora de elaborarmos nossos questionamentos, seja em relação a nós mesmos ou para com as pessoas com as quais convivemos.

Vejamos agora um exercício de reflexão para os que se sentirem à vontade em fazê-lo: Lembre-se de algum acontecimento qualquer (sem grandes relevâncias) que tenha lhe ocorrido na semana passada, ou no mês passado. Agora tente responder as questões a seguir mentalmente e perceba se ocorrem possíveis mudanças em suas respostas.

– O que levou você a escolher tal acontecimento para realizar este exercício imagético dentre tantos outros acontecimentos que ocorreram a cada minuto da sua semana ou mês passado?

A – Qual a causa provável, a razão, ou motivo de tal acontecimento?

B – Como foi que este episódio aconteceu?

C – Como você se sentiu em relação a este acontecimento?

D – Qual sua opinião sobre este evento ocorrido?

E – Qual o grau de importância que você atribui a este acontecimento?

F – Existirão possibilidades deste acontecimento desencadear consequências futuras para sua vida?

G – Você aprendeu algo com este acontecimento?

H – Qual o sentido ou significado desse acontecimento em sua vida?

I – Em que frequência acontecimentos como este ocorrem em minha vida?

Z – Nenhuma das alternativas acima deveria ter sido perguntada em relação a este acontecimento que elegi para o exercício?

Perceba que foram dez perguntas diferentes em relação a um mesmo fato. Com isso, há a possibilidade de termos tido dez diferentes respostas.

– Na letra A perguntamos sobre os porquês, então provavelmente se partirá do raciocínio para responder; (E quando o Porquê não deveria ser jamais o começo para uma resposta de questões outras que não derivam da razão, sendo o caminho por outras vias que não o raciocínio? Ou quando a Razão tem pouco peso subjetivo?) …

– Na letra B perguntamos o “como” induzindo a uma explicação, mas a narrativa foi deixada em aberto; (E quando não há explicação alguma para ser dada? Quando simplesmente não se sabe e não tem nada de errado em não saber?) …

– Na letra C perguntamos sobre como se sentiu, uma questão remetendo às emoções; (E quando não há sentimento algum envolvido na questão, quando as emoções são inexistentes?) …

– Na letra D perguntamos uma opinião sobre o fato, fazendo com que a pessoa rastreie em sua Estrutura de Pensamento um ou vários tópicos associados que tiverem mais peso para emitir um parecer; (E quando não há opinião sobre o fato? Qual o problema em não ter?) …

– Na letra E perguntamos sobre o grau de importância, uma pergunta já pressupondo que a pessoa atribui alguma importância ao acontecimento e induzindo-a em atribuir um critério de valoração; (E quando a pessoa não atribui nenhum valor, sendo os registros de outras ordens que não axiológicos?) …

– Na letra F perguntamos sobre a possibilidade de futuras consequências, instigando a pensar se haverá ou não alguma decorrência futura deste fato; (E quando a pessoa não pensa sobre os efeitos futuros das causas do presente? Simplesmente não têm a ver com sua Estrutura de Pensamento analisar possíveis implicações para com o futuro?) …

– Na letra G perguntamos se a pessoa aprendeu algo, induzindo ao aspecto epistemológico; (E quando não há peso subjetivo nas questões relacionadas ao aprendizado?) …

– Na letra H perguntamos sobre o sentido atribuído, instigando a rastrear na malha intelectiva um sentido para o acontecimento; (E quando a pessoa não é do tipo que atribui ou busca o sentido das coisas em sua vida? Qual o sentido de uma pergunta dessas na vida de alguém assim?) …

– Na letra I perguntamos sobre a frequência, induzindo a respostas baseadas nos “sempre (s)” e “nunca (s)”, nos “raramente (s) ou  no “de vez em quando (s)” , “X vez ou vezes”…; (E quando a pessoa se constitui com outros tópicos e as questões de quantificar acontecimentos por frequências não fazem parte do seu jeito de ser?) …

 – E na letra Z perguntamos sobre as perguntas anteriores, se deveriam ou não, ter sido feitas; (E quando a pessoa não gosta de fazer perguntas ou de legislar sobre as perguntas?) …

 

Enfim, até mesmo um exercício como este, não é algo para todos, para alguns será algo simples e para outros muito complexo. A singularidade humana precisa ser respeitada, este texto é indicado para pessoas interessadas na Filosofia Clínica, por isso, acaba utilizando-se de tais exercícios constituídos de perguntas como uma escolha didático-pedagógica, a fim de refletir exatamente sobre os riscos que perguntas desenfreadas podem incorrer.

Há perguntas sagazes, que despertam o melhor em nós, há perguntas estúpidas, que talvez nunca devessem ter sido feitas, há perguntas capazes de nos levar para bem longe ou nos trazer para dentro de nós, capazes de tocar bem no fundo do coração ou na própria alma, há perguntas sem respostas, e ponto final, há perguntas que nos deixam reticentes, ou que nos enchem de pontos de interrogação, há perguntas que são como lâmpadas que acendem um local que estava escuro, há perguntas capazes de nos induzir às dores ou às delícias, há perguntas que não calam, há perguntas que são como gritos estridentes ou como doces e suaves sussurros, há perguntas que são como erva daninha no jardim da existência, há perguntas capazes de inspirar uma vida inteira,  há perguntas que são como mundos inteiros que se descortinam, há perguntas que despertam sonhos ou pesadelos, há perguntas que podem matar monstros gigantes, há perguntas que abrem novas janelas pelos muros, há perguntas que nunca foram questionadas ou avaliadas, há perguntas que passam por processos de reciclagem, há perguntas inimagináveis, há perguntas à espera de despertar, tal como a Bela Adormecida esperando o beijo filosófico do príncipe; há perguntas que ainda não foram perguntadas e há perguntas que talvez nunca serão perguntadas, há perguntas que podem levar a labirintos sem fim… Então antes que a gente se perca, esse texto termina assim!

 

 


[1] Qual o fundamento ético e epistemológico de quem faz tal afirmação?

 

Tainara Oliveira
Sobre Tainara Oliveira: Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter e em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professora adjunta da Pós-graduação em Filosofia Clínica em Florianópolis (CENTROFIC-SC / Instituto Packter). Graduada em Pedagogia pela Universidade do Contestado – UnC e em Filosofia pelo Instituto Packter. Possui Aperfeiçoamento na filosofia de Ortega y Gasset e de Lúcio Packter na Universidade de Sevilha – Espanha. Site: http://www.terapiafilosofica.com/
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